Vivinaldo
Vivinaldo preparava-se para nova greve. Faltavam ainda três dias, mas já a excitação tomava conta dos seus momentos livres. Imaginava a euforia de tanta gente se reunindo para lutar pelos seus direitos, tanta pessoa forte e resistente, tão motivada pelo seu bem-estar e tão solidária pelo bem-estar dos outros, que dissolvia a renda de mais um dia de trabalho por essa compaixão. Davam essa renda diária, todos eles, como uma oferenda que faziam aos deuses da democracia.
A paixão que rodava as ruas estimulava-o. E
acima dela a bela arte que dos populares nascia. Conseguia rever as histórias
dos avós na bonita camaradagem, as histórias de canções que os camponeses
soltavam das gargantas, máximo esforço de libertação enquanto eram oprimidos
pelo trabalho, pelo calor, pela pobreza, pelo desrespeito. A arte das palavras
de ordem, curtas poesias que falavam ao coração espicaçando as suas
palpitações, que falavam aos joelhos sacudindo-os para a frente, que falavam
aos punhos, agitando-os no ar cerrado. A inocência dos cartazes pintados à mão,
e dos encomendados pelos sindicatos, uma campanha visual que se imaginava órfã,
incapaz de reconhecer a sua irmandade com a publicidade e a propaganda.
E além da arte, a compaixão. Esse sentimento
vivo de fraternidade entre os queixosos, um sentimento que em mais lado algum
se podia encontrar. Certamente não o encontraria no trabalho. Esses eram os
tempos dos avós. O trabalho havia aprendido a caçar a solidariedade dentro das
suas paredes. Trocava o amor entre camaradas por lealdade aos empregadores. Em
vezes fazia essa troca por dinheiro. Em outras fazia a troca por ameaças. Mas
trocava. Então só na rua se podia ver que ainda os trabalhadores eram irmãos,
primos, amigos, camaradas. Juntos riem. Juntos choram. Juntos raivam. Juntos.
Mais juntos, mais livres de paredes do que quando estas os empurram uns acima
dos outros. É junção de livre acordo. A outra é prisão. E todo o prisioneiro é
feito para desconfiar do parceiro de cela. Só a greve, essa gritante procissão
de vontades, consegue restabelecer os laços de apoio que a promessa de salário
quebrava.
Por tudo isso Vivinaldo amava as
manifestações. E mais as amava porque davam um sentido à sua existência. Faziam
ele olhar a si e dizer: não sou apenas coisa. Tornavam ele agente, pessoa com
pensamento, com poder de inventar decisão. Porque lembravam que uma decisão,
dele fazia efeito. Por pequena que fosse. Se assim não era, para quê tanta
comoção? Porquê tanta emoção, tanto sentimento, se o futuro era escrito, se nem
nenhum fosse pedra suficiente para descarrilar comboio? Cada um era pedra, sim.
Isso lembrava a greve, a manifestação, o protesto. Cada um era pedra. Cada um
podia descarrilar comboio. Cada um podia. Então aí cada um sabia ter poder.
Assim era com ele. Sabia ter poder, poderia porque se grevava. Sem ela tudo era
autómato. Mecanismo feito para que a máquina não parasse. Toda a ação era feita
para manter a engrenagem a funcionar. Nenhuma decisão sobre nada. A engrenagem
já andava antes, e depois continuava a andar. Servia o povo somente para não
ser. Não ser obstrução. Não ser dificuldade. Não ser contratempo. Não ser
obstáculo. Existia para dele se fazer gestão de risco. Para aprender a odiar a
sua autonomia. Apenas a greve o libertava dessa prisão.
Ainda tinha três dias a esperar, mas já
deixava tudo preparado. Tinha até comprado óculos de sol novos que estrearia no
evento, e que por ser guloso de vaidades não mostrava a ninguém: desejava
reservar as surpresas que teria ao ver nos outros a reação. Preparando todo o
montinho das roupagens que trajaria no dia da greve, disse para consigo:
– Vão ficar bem com os atacadores vermelhos –
e logo se pôs a os trocar nas sapatilhas.
Os atacadores vermelhos são, como é sabido, os
mais indicados quando se deseja constringir algo enquanto o coração está
enamorado de libertação. Talvez por isso tenham sido invenção do célebre
Hideolomir Pragmatovski, engenheiro de cordames a quem os bolcheviques haviam
encomendado a tarefa de revelar ao mundo proletário uma forma socialistamente
responsável de vergar o povo ao trabalho, e o qual era para além disso
conhecido pela famosa frase "chiça camarada, mais um copo de água-pé que
isto já passa".
E os dias do intermeio assim passaram, com
Vivinaldo em antecipação e as vestes em arrumação, ambos sedentos de apanhar
algum do pó que se alevanta, quando dão os grevistas em fazer molhada de gente
sapateando em terra batida, arte cada vez mais perdida por destino dos modernos
asfaltos e calçadas, obrigando as multidões a produzir mais areias,
sedimentando as praças com latas, garrafas partidas, embalagens e pontas de
cigarro, para que sobre elas atuem os elementos fazendo novas poeiras que se
poderão lançar aos ares com o sapatear do povo indignado.
Os dois dias de interim passou-os cogitando
que nem a todos agracia a greve, e assim se fez pensar, que são os demais que
sofrem a greve, não os grevistas. A bom ver, nem mesmo os patrões ou os
governos a sofrem, e ainda bem que assim é. De outra forma, provocaria esta tal
instabilidade que perderia toda a graça, seria tornada tragédia. Uma civilidade
colapsa quando sofrem os seus grandes, tanto quanto se sustém no sofrimento dos
seus pequenos. Poucas são as coisas em que patrões e sindicalistas concordam, e
essa é uma delas. E assim continua sendo coisa boa, porque dos grevistas faz
argamassas existenciais, e dos seus maiores faz suaves indiferenças.
Pelo que sofrem os pequenos, que de tanto
atarefados mais atarefados se tornam pela dificuldade que a paralisação lhes
impõe aos curtos passos. Apertam-se sem solidariedade nos restantes vagões que
ainda deslizam os carris, dobram a dignidade a justificar atrasos e ausências a
magnatas inclementes. Ou mais regularmente aos esbirros destes. Vão aturando
mais essa cruz, que envergam sem orgulho com as outras que carregam, misturando
dentro deles a raiva aos protestantes e a compaixão por os mesmos. Uns teimam
que o governo dará resposta e tudo se resolverá, mas são dessa opinião enquanto
o governo for desse que lhes gosta. Os outros igual, mas de governo diferente.
Deste, dizem que não faz nada. E os outros tantos acham que se era a fazer
qualquer coisa já fora feita e indica tudo isto que será sempre a mesma
cantiga, pelo que bufam e seguem o seu sofrimento solidário.
Mas chama essa compaixão a compaixão reversa,
a que por de si dá à luz os furadores. É natureza da greve sofrer os seus
furos. Só assim se pode assemelhar a um escoador humano. Boa cerimónia fazem
esses furos, que pagam aos sofrentes da greve o seu aturo, aos seus senhorios a
renda, aos seus governos o dízimo e aos seus amos a submissão. Ah! Bondosos
furas, eternos garantes da paz na terra. Sem eles há muito que as peripécias da
populaça teriam submergido o capital numa era trevesca. Descobria Vivinaldo
nessa raciocinação ser dos fura-greves grande apreciador, porque sem eles a
greve deixaria de ser bálsamo e tornaria revolução. Coisa grave por perturbar
ainda mais os horários do carril.
Vivinaldo nenhuma dessas dores sofria. Não
grevava hoje, e assim salvava o seu quinhão. Também não furava a greve, e assim
sustinha o respeito dos colegas. E conduzia, automobilava, para que os horários
infrequentes e a populosa travessia lhe não amarrotassem a roupagem. Afinal,
por ser tão especial dia, vinha trajando em rigor, óculo escuro em estreia e
tudo. E era bom que assim fosse, pois dele se esperava boa presentação. Porque
apesar de tudo, Vivinaldo era secretário de estado dos transportes.