Ruca

Ruca tinha uma daquelas caras que desafiam as espectativas. Roliça, os olhos despertos, uma grande cabeleira. Requeria um esforço considerável para a imaginar um rapaz convalescente. Olhava para a mochila apetrechada que trazia no canto da barcaça e voltava a refilar por se ter esquecido da treta do casacão. Se o tivesse trazido ter-lhe-ia facilitado imenso a vida. Podia ter seguido direita até ao polo sul, e encontrado o fim-do-mundo a pé. Como só se lembrara de trazer roupinha de verão, obrigava-se a navegar de canoa até ao Pacífico equatorial. Era o sítio que melhor acomodava gente com pouca roupa.

O casaco, o gorro e as meias de lã não tinham ficado para trás por desleixo. Tinha sido a preocupação pela fome e sede a vencer o debate entre todas as necessidades. Também não trouxera livros, a não ser um pequeno maço de folhas e um lápis para nelas desenhar. Permitiam que tomasse as notas que a estranheza e a novidade ditassem, e em caso de necessidade podiam substituir algum bocado de madeira como combustível para um fogo. O que mais trazia eram coca-colas e chouriços. Algures tinha também enfiado uma botelha de água, uma lata de sardinha e meia bola de flamengo. Mas a experiência ditava que o chouriço salgado e a aguadilha doce lhe davam os nutrientes capazes de a aguentar por uma investida de alguns dias.

A aventura começara cinco dias antes, quando a parva da mãe e das amigas dela estavam a conversar na sala como se ela não estivesse no quarto mesmo ao lado. Aquelas foleironas passaram metade da tarde a refilar da descendência que com quase quarenta anos de idade ainda tinham que suportar. A estúpida da mãe a concordar com elas. Enervava sobretudo a falta de responsabilidade que se reservavam. Tudo dependia da moleza dos filhos. Nada da sua educação ou do sistema. Enfim, às tantas saiu esbaforida para evitar ser mais malcriada ainda, e foi ter com o pessoal. Contar-lhes tudo e combinar com eles que responso deviam dar às mães por esse comportamento, mas quando chegou percebeu que se envolviam estes numa outra conversação. Faziam pouco dela como as mães faziam deles. Quem sai aos seus... Riam-se nas suas costas pelo que chamavam a crendice dela, a sua seita, o culto que lhe tinha endrominado a mioleira. Ruca não ia discutir. Sabia que de pouco valia. As vezes que tinham abordado o assunto haviam azedado os palipicas a toda a gente porque de um lado e do outro se dizia «mas olha as provas» e «repara neste facto» quando nenhum deles detinha posse de uma única destas coisas. Foi aí que ela se decidiu a demonstrar não ser uma mosca morta à mãe e que tinha razão aos amigos.

Começara por estudar bem o mapa. Pegava num correto e estudava a sua posição e, olhando à sua volta, a distância a que se encontrava dos vários confins da terra. Reparava pela primeira vez como é chato e desagradável ter nascido na Europa. Se fosse australiana ou siberiana estaria a quase dois pulos desse espetacular desconhecido, mas ali, tão perto do centro do mundo, era uma real chatice ter que percorrer tanta largueza. Ficou assim a estudar aquele grande mapa durante um bom bocado. Talvez um quarto de hora ou coisa assim. Pode não parecer, mas olhar um mapa por um quarto de hora é bem mais cansativo que ver um filme ou ouvir música por duas horas. É assim como estar a ler ou a olhar uma coisa qualquer num museu, por exemplo um interruptor geral – como são coisas muito paradas temos que ser nós a fazer todo o esforço na relação, o que nos faz sentir uma pontita de injustiça todo o tempo. Quando depositou o mapa sobre a cama, decidiu encher a mala. Um quinto levava alguma roupa, sobretudo roupa interior e um fato de banho, já que estava a chegar o verão e nunca se sabe se pode ser baril parar o que se está a fazer para ir dar um mergulho. Depois saiu de casa batendo a porta com muita força para a mãe e as parvas das suas amigas perceberem que ela continuava chateada e que aquela conversa não era maneira de tratar alguém que já passava dos trinta e cinco.

Então procurou a boleia que precisava. Foi até às docas porque tinha notada no mapa, quando o olhara atenciosa, que o planeta estava a bordejar de água. Teria melhor sorte, pensou, em conseguir carona de qualquer coisa com casco. Demorou algum tempo porque nenhum dos capitães que apanhava ia a qualquer dos locais que ela apontava no papelinho desenhado com rabiscos de várias cores, cada um simbolizando um continente. Foi numa dessas conversações que se lembrou de apontar a pequena massa fria no sopé do planeta dizendo «Se o senhor me deixar aqui eu depois vou a pé», ao que o homem que deveria ser uns cinco anos mais novo que ela respondeu «Mas menina, olhe que ali abaixo faz muito frio. Trouxe um casaquinho melhor consigo?»

E foi nesta troca de impressões que Ruca se decidiu a atingir o final do mundo por mar. O capitão ia dar voltas surpreendentes pelo que não lhe custava nada deixá-la no arquipélago havaiano depois de passarem o canal do Panamá onde ele ficara de ir apanhar uma papelada qualquer. Ela ofereceu algum do dinheiro que sacara da mãe pelo transporte e ainda por um bote, que depois levaria das ilhotas pacíficas para o seu destino. Assim fora e agora, seis semanas volvidas da evasão, e mais de seis dias a abanar um remo nas mãos, chegava finalmente ao seu destino.

De princípio teve alguma dificuldade a compreender o que via. Como crescera a ver filmes realizados por pessoas que faziam fé na terra ser embolada, habituara-se a achar essas apresentações naturais, mesmo sabendo tratar-se o planeta de um prato na cova no universo. Agora que abordava o limite do planeta, assim tão de perto, sentia alguma confusão. Todos tinham estado errados. Os do tal culto, por obviamente terem sofrido uma lavagem cerebral. Mas também os topógrafos mais competentes que já vira. Chegada à orla das coisas, não havia qualquer barreira. Nenhuma muralha de gelo, nenhum fosso intransponível. O que era, simplesmente terminava, começando o resto. A água rasava na borda como se estivesse numa piscina sem rebordo, onde a diferença do começo da água e o final do que a envolvia estava apenas no suave mover do líquido.

Algo receosa, Ruca decidiu tocar na nova superfície. À vista parecia um azulejo muito escuro, mais escuro que as noites que conhecia. Tocou-lhe com uma mão. Era exatamente isso. Apenas um azulejo muito escuro. Saiu da barcaça e retirou a mala consigo. Quando olhava em frente não via absolutamente nada. O breu apenas refletia alguma luz onde estava. Uma verdadeira treta só ter trazido uma lanterninha de mão. Andou por ali uns dez minutos, tentando ver se topava com alguma coisa, mas nada. Entretanto lembrou-se de voltar para perto do barco e apanhar alguma luz para produzir desenhos do que ali via.

Demorou quase quarenta minutos para encontrar a borda d'água de novo, e duas horas mais para aceitar que perdera o barco. Então sentou-se a chorar e assim ficou por um bocado. Esgotada, decidiu limpar as lágrimas, assoar o nariz e comer qualquer coisa. Depois de um bocado de chouriço já estava mais bem disposta, pelo que se pôs a desenhar. A luz estava bastante boa apesar de ser final do dia. Foi então que notou algo maravilhoso. O sol, essa grande bola de fogo, estava quase ao seu lado. «Claro, é precisamente aqui que ele se põe!» descobriu ela ao lembrar-se que estava no outro extremo do mundo de onde ficava o Japão, esse país onde o sol nascia. Então, um ruído mecânico fez-se ouvir. Procurando a sua origem os olhos dela foram dar com o chão que pisava. Lá mais à frente, mesmo por debaixo do sol, os ladrilhos que cobriam o chão desabrochavam como o olho de uma objetiva fotográfica, revelando um buraco. Dez minutos depois o grande fogo tinha sido engolido e o buraco fechava de novo.

Teria que ter cuidado para não se deixar apanhar nessas depressões. Não pudera desenhar todo o espetáculo maravilhoso, mas presenciá-lo dera-lhe a força de espírito necessária para continuar. Ali estava demasiado longe de terra firme, mas no Polo Norte não. Sobretudo chegando o tempo mais frio, os gelos que faziam chão aos ursos polares talvez lhe proporcionassem uma ponte nevada até ao Canadá ou à Gronelândia. Apanharia frio, mas não via outra hipótese.

A primeira noite foi de todas a mais impressionante. A cada par de minutos abria uma nova comporta levando consigo mais um ponto de luz. Normalmente engolia uma estrelinha de cada vez. De vez em quando morfava toda uma constelação. Era um espetáculo impressionante. Quatro vezes ela se aproximou de estrelas mais fracas, tentando perceber que fios ou eixos as moviam. «Devem ser ímanes!» tentou dizer, mas descobriu que a sua voz era deveras abafada. Devia ser por estar em vácuo, como lhe chamava o antigo professor de ciência. Nesse momento pensou que o ruído das portas a abrir e fechar deveria ser ensurdecedor se não existisse esse vácuo todo.

Só na segunda noite se apercebeu da sua sorte. Tivesse saído da Terra do outro lado, e possivelmente teria sido engolida por um dos muitos buracos que o chão abre para engolir estas luzes. Ali, conseguia apenas fugir-lhes porque olhando as pequenas constelações moverem-se na sua direção, tinha apenas que calcular a sua rota e evitar pisar o ponto para onde se dirigiam.

Demorou tanto tempo a chegar ao Polo Norte, que pensou que quando o encontrasse já estaria morta. Mas um dia logrou fazê-lo. Sentiu-se meio aparvalhada porque de tudo quanto vira, não esperava vir a descobrir uma fiada de pequenos duendes a suar sobre bicicletas estáticas ligadas a um gerador e um bêbado Pai Natal a chicoteá-los para pedalarem mais depressa. Um pequeno duende tentou acalmá-la dizendo «Ninguém gosta, mas alguém tem que o fazer. O eletromagnetismo vem de algum lado, não é?»

Ela afastou-se na terrível cena, e procurou um lugar onde o gelo fosse mais baixo para ser mais fácil atravessar. Só quando lhe pôs ambos os pés acima é que sentiu o frio que estava. A temperatura no vácuo fora surpreendentemente estável, como a frescura de um final de tarde de verão. Agora sentia-se gelar muito depressa. Começou a correr para a cabana do Pai Natal. O bêbado teria certamente um outro casaco. Podia sacar-lhe uma das renas e bazar para casa. Depois ia dar todas as conferências de imprensa e iria a todos os programas de televisão mostrar ao mundo as suas descobertas. E entretanto escreveria um livro e faria sessões de autógrafos. E para além disso iria a programas de rádio para que nem os mais velhos nem os mais condutores ficassem alheados destas novidades. E ainda ia pensar outra coisa quando uma enorme penugem branca lhe deu uma patada. Cinco minutos depois, o grande urso polar com a boca pintada de sangue dava um grande arroto e assim terminava esta estória.

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