O herege
O escultor senta-se de perna cruzada. Ao colo dorme um toro de madeira que as mãos calejadas acariciam enquanto a mente navega os mares da antiguidade, tentando pescar um dos monstros que vivem nos oceanos para lhe prender a alma no material fibroso. As crianças da aldeia passam pela figura quieta olhando o lenhoso ovo de espírito. Sabem que nele irá nascer um deus. Diferente dos ovos dos quais saem animais, sozinhos e viventes, desses ovos o parto requer ajuda profissional, posto que deles saem apenas coisas mortas, inertes. Os espíritos animam-se apenas nas ideias das gentes. Uma faísca interior convida uma divindade. Em desatenção se pode imaginar que algo de fora do mundo ocasiona tal inspiração. Mas a cuidada observação verifica que assim não é. Fosse, e cresceriam por todo o lado os ícones de todos os santos, todos os deuses, todos os demónios, quando na realidade só tendem a ganhar corpo aqueles que a quem as comunidades rogam comparência. Nunca chegou uma sereia atrasada a um...