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A mostrar mensagens de junho, 2022

O herege

O escultor senta-se de perna cruzada. Ao colo dorme um toro de madeira que as mãos calejadas acariciam enquanto a mente navega os mares da antiguidade, tentando pescar um dos monstros que vivem nos oceanos para lhe prender a alma no material fibroso. As crianças da aldeia passam pela figura quieta olhando o lenhoso ovo de espírito. Sabem que nele irá nascer um deus. Diferente dos ovos dos quais saem animais, sozinhos e viventes, desses ovos o parto requer ajuda profissional, posto que deles saem apenas coisas mortas, inertes. Os espíritos animam-se apenas nas ideias das gentes. Uma faísca interior convida uma divindade. Em desatenção se pode imaginar que algo de fora do mundo ocasiona tal inspiração. Mas a cuidada observação verifica que assim não é. Fosse, e cresceriam por todo o lado os ícones de todos os santos, todos os deuses, todos os demónios, quando na realidade só tendem a ganhar corpo aqueles que a quem as comunidades rogam comparência. Nunca chegou uma sereia atrasada a um...

Mariano

Acontecia sempre assim com Mariano, quando sentia o conforto da certitude pousar sobre o peito, vestiam máscaras de estranhação os que dele se abeiravam. O moço deparava-se com uma situação que muitos concordavam apenas em ser complicada, embora discordassem em tudo o resto. Para Mariano a obviedade era palpável, daí ter imediatamente reagido com um «Aha!» assim que a viu. Depois deu dois passos em frente que os amigos julgaram ser fruto da insanidade temporária que o compincha parecia gozar sem proveito. Dizia-se que sofria do mesmo mal que o avô. Suspeitava-se que fosse problema de genética, daqueles que fazem como os jogadores de cobras e escadotes, saltando por vezes uma geração para assim chegar mais rápido ao futuro. Também o velho Marcelino tinha tido esse problema, embora o seu fosse mais simples de compreender, fosse porque o velho vivera noutros tempos, fosse porque os que o estranhavam viviam noutros tempos. O velho recusara toda a vida o que chamava a modernice dos relógi...

Purga

Ermelinda passava mal há alguns dias, porque decidindo ser repasto do ninguém guerreava com o que habitava dentro de si. Sabem os científicos não haver forte psicologia capaz de elevar o órgão pensante à cabine de comando do corpo, destronando a milionar orquestração que sobre ele impõe o intestino. Ermelinda suava agora esse conhecer, desliquidando pela frente e por trás, castigo do jardim sensorial que por desplante enfrentara. Apenas dois dias, dissera o médico ao contar a partir da bula. Apenas dois dias, e mostrava a ela dois dedinhos de uma mão separados dos outros, como se sinalizasse vitória. Fora o suficiente para a convencer, já que tudo aquilo era tido por pouco higiénico, o tipo de doença que afeta sobremaneira a figura pública. Dois dias. Chovia a potes, tempestades de espírito. Ermelinda passeava para casa num passeio sem cor. Vinha com o olho cheio de cinzento, a esperança noutro lado qualquer, reclamando em protesto. Mas não ia desistir. Chegando a casa faria como o d...

Boa vontade

"Olhai boa gente, olhai para este delicado lenço que me tapa o rosto. Olhai para ele e vede a minha pureza, a minha nobre castidade, a alvura da minha sensível alma. Olhai também para estas limadas unhas que tenho, tão formosamente suaves as suas arestas que as podeis usar para afagar a pele do recém-nascido mais macio. Reparai no ícone que trago comigo, este luxurioso símbolo de virtude que atesta na sua inação a minha franca e inocente formosura mental. Folgo em poder aqui estar, em vos poder agraciar com as minhas doces palavras, no poder partilhar convosco a ternura da minha vontade, a beleza do meu caráter. Acalento o meu coração por me saber também entre vós e os vossos pristinos chapéus, que demonstram a vossa simples modéstia, o vossa observância pela castidade. Enriqueço na vossa nobre presença, congratulando os vossos sapatos bem engraxados, livres de impurezas e dejetos, límpidos como uma água beatificante. E nos símbolos que trazeis, irmãos em espírito do meu ícone, ...

Terra Vista

– Espartanarque! Terra à vista meu compitão! – Vixemarinha! Em chegando a terra lavas-me essa boca com sabão, marujo – respondeu o homem com a jiboia tatuada no rabo - Boa nova essa, mesmo assim. Já vinha a calhar poupar o estômago desta remação. A companhia fazia já sete semanas em mar e muitos apreciavam a ideia de fugeminar dali para fora, porque entendiam ter sido enganados. Tinham apresentado currículo para ir piratar para alto mar, boas comissões dizia o anúncio, horas maleáveis e bom espírito de equipa. A comissão não era má e a rapaziada até se entendia. O problema vivia mesmo no logro do alto mar, figura que encantara muitos dos que nunca antes haviam navegado e que por isso mesmo obstinavam em comparar a experiência de bordo com o romantismo que anteciparam na imaginação. Frustravam-se, portanto, porque o mar era alto apenas por poucos instantes, e enervavam-se, também, porque ao mar alto se intercalava um mar mais baixo, numa espécie de permanentes convulsões brincalhona...

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