O empreiteiro
O velho empreiteiro já não sabia o que fazer. Estava gasto. Gasto nas mãos. Gasto nos pêlos. Gasto sobretudo das ideias. Onde não se gastara era no entendimento. Mantinha firme a convicção no serviço bem feito, no cliente satisfeito. Por isso mesmo tentava sempre humanizar os seus contratos. Conhecer as pessoas com quem lidava. Partilhar com eles dois dedos de conversa. Perceber como imaginavam habitar o lar que ele obrava. Mas isso era cada vez mais difícil. Já passavam os dias em que o contactavam pessoas com a sua simplicidade. Famílias que lhe contavam ficções palpáveis. Um menino a brincar naquele canto, uma rapariga a estudar à secretária iluminada pelo sol da tarde. Este quarto mais luminoso, com cores alvas. Aquele mais aconchegador, com pastéis. Uma cozinha com cheiro de bolo de maçã aos sábados à tarde. Pessoas simples. Mas esses cada vez menos tinham bolso para o acomodar. Agora eram sobretudo os empossados que o chamavam. Gente de outra casta. Doutoras e empresários que...