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A mostrar mensagens de maio, 2022

O empreiteiro

O velho empreiteiro já não sabia o que fazer. Estava gasto. Gasto nas mãos. Gasto nos pêlos. Gasto sobretudo das ideias. Onde não se gastara era no entendimento. Mantinha firme a convicção no serviço bem feito, no cliente satisfeito. Por isso mesmo tentava sempre humanizar os seus contratos. Conhecer as pessoas com quem lidava. Partilhar com eles dois dedos de conversa. Perceber como imaginavam habitar o lar que ele obrava. Mas isso era cada vez mais difícil. Já passavam os dias em que o contactavam pessoas com a sua simplicidade. Famílias que lhe contavam ficções palpáveis. Um menino a brincar naquele canto, uma rapariga a estudar à secretária iluminada pelo sol da tarde. Este quarto mais luminoso, com cores alvas. Aquele mais aconchegador, com pastéis. Uma cozinha com cheiro de bolo de maçã aos sábados à tarde. Pessoas simples. Mas esses cada vez menos tinham bolso para o acomodar. Agora eram sobretudo os empossados que o chamavam. Gente de outra casta. Doutoras e empresários que...

Colecionadores

 Mnemósine tomava um chá sobre uma nuvem radiosa. Estava uma manhã ou tarde soalheira, como o são todas as que se passam por cima das nuvens. O dia era calmo e belo, apesar da companhia. Mas a deusa tentava não se apoquentar. Descobrira há muito que a eternidade custa menos a passar aceitando o que se não pode mudar. Com ela beberricava Anansi, o traquina octópode que fizera fama a endiabrar os deuses. Em tempos Anansi fora um robin dos bosques, retirando em má-fé as riquezas narrativas dos deuses e ofertando-as aos mortais. Fora também um napoleão, espoliando os arquivos divinos e levando consigo as mais belas histórias, acabando por deixá-las em palácios cheios de povo. Não se arrependia de nada. Tinha, aliás, muito orgulho nas suas trapaças. Não o fizera com moral ou sentimento, mas com brincadeira no lugar da cabeça e folia no lugar do coração. Enquanto chupava prazeroso o líquido escuro e amargo, mostrava à companheira algumas das brilhantes jóias que por suas artes adquirir...

A árvore e os lenhadores

Era uma vez uma terra no fim das terras. Uma daquelas que é menos terra do que é mar. Viviam nessa terra todos os animais e plantas que pudessem habitar naturezas mortas, e muitas casas onde essas naturezas mortas poderiam perecer, rachando-se ao frio que lhes vinha da falta de calor. Acontecia haverem nessa terra multidões de lenhadores. Eram-no não por linhagem, mas por convicção. Surgiam menos por ódio às árvores do que por piedade das dentaduras que se corroíam de tanto bater nelas mesmas. Toda a manhã saíam das suas friolentas cabanas e dispersavam-se pelas florestas, procurando árvores cuja decadência tornava sofrimento o existir e perigava o florescimento das suas descendências. Quando topavam uma, faziam dos sovacos boquiabertas comportas de suor e dos machados honradas eutanásias. Quando os linhos das camisas ficavam bem empapados, quedavam-se em melancolia, admirando o desabamento martírico dos anciãos dos bosques. Todo o funeral era presidido por estes nobres lenhadores ...

Bllorkzork e Zzollprr

O duo tinha começado a viagem de retorno depois de terem passado os últimos quatro ciclos de órbita lunar a observar e a catalogar os vários factos que recolhiam do pequeno planeta azul do sistema Sol. As missões procuravam mapear os cantos da galáxia onde se desenvolviam espécies capazes de navegar as estrelas. Esta era a sétima missão que Bllorkzork fazia com o novato Zzollprr, mas antes disso já acumulara quase trinta missões em outras equipas, o que lhe conferia a infeliz incumbência de coordenar as ações e produzir os relatórios. Com as coordenadas introduzidas na nave, Bllorkzork dedicava-se a essa reportante tarefa. Era coisa que nunca o confortara, já que lhe parecia redundante a produção de semelhantes panfletos quando os seus instrumentos de registo eram mais que capazes de produzir toda a informação necessária. Aparentemente, algum empregado de escritório ocupava o seu tempo a ler os vários relatos, justificando assim a sua existência. Já preenchera grande parte do formu...

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