A árvore e os lenhadores

Era uma vez uma terra no fim das terras. Uma daquelas que é menos terra do que é mar. Viviam nessa terra todos os animais e plantas que pudessem habitar naturezas mortas, e muitas casas onde essas naturezas mortas poderiam perecer, rachando-se ao frio que lhes vinha da falta de calor.

Acontecia haverem nessa terra multidões de lenhadores. Eram-no não por linhagem, mas por convicção. Surgiam menos por ódio às árvores do que por piedade das dentaduras que se corroíam de tanto bater nelas mesmas. Toda a manhã saíam das suas friolentas cabanas e dispersavam-se pelas florestas, procurando árvores cuja decadência tornava sofrimento o existir e perigava o florescimento das suas descendências. Quando topavam uma, faziam dos sovacos boquiabertas comportas de suor e dos machados honradas eutanásias. Quando os linhos das camisas ficavam bem empapados, quedavam-se em melancolia, admirando o desabamento martírico dos anciãos dos bosques.

Todo o funeral era presidido por estes nobres lenhadores que despiam os novíssimos cadáveres das suas roupas de profissão, desmembravam os seus apêndices folhosos e talhavam as suas carnes até estas se converterem nas geometrias ideais para lançar sombras na parede das lareiras. O choro, não o ofereciam. A mortandade dava-lhes demasiada esperança de serões acalentados. Também os troncos mais novos se esqueciam de chorar. A nova luz punha-os a sonhar no seu crescimento.

Foi isto ocorrendo sem complicação na altura em que os bosques se regulavam em debate. Os animais decidiam a sua legislação em grande palratório, concluindo da sua ordem pouca decisão e muita confusão. E parecendo que a todos se beneficiava, acabava por todos prejudicar, dando azo a todas as vontades e com elas também todas as maldades. Dava-se a essa liberdade doentia o feio nome de anarquia. Foi talvez inevitável que um dia, atravessado pelas machadadas que abalroavam os seus irmãos, um severo pinheiro tenha optado por terminar essa folia. Fez certa altura uma fábula deste triste acontecimento alguém em fontanice:

Para tudo tinha o grande pinheiro solução.

Onde se alimentava a conversação plantou a imposição.

Foi aplaudido por os habitantes do bosque libertar

do custo pesado de deliberar.

 

Onde via casas desquentes calorava com religião,

ambiental substituta do fogão.

Onde encontrou maldades de torpedeiro

ofereceu os limitados movimentos de um castanheiro.

 

Malcontentes com a fria acalmia,

decidiram os lenhadores continuar a sua razia.

Foi pouco o seu insurrente fomento e assim que novas disso escutou,

os mandar apanhar o pinheiro ordenou.

 

Foram a ele presentes muitos dos lenhadores persistentes,

e em vez de à boa sorte apelar mantiveram-se remordentes.

Recusavam capitular, e os pés na fé acalentar.

Tinham neles mesmos muito acreditar.

 

Soava nas suas gargantas o orgulho,

de quem só faz malvadeza quando no sapato traz pedregulho.

A portentosa árvore pouco chorou da afronta espessa,

pois sabia ser crime qualquer palavra para a sua avessa.

 

Chamando a si a magia

que dos druidas em oferta lhe competia,

o pinheiro manteve-se reto

e de cada um deles fez um inseto.

Muita criança que já cresceu ouvindo estas palavras logrou poupar-se certos infortúnios. Mas tivessem sabido a história toda e talvez fossem reconsiderar nas suas precauções, pois narram as suas Atas que tende a falhar o castigo dos inimigos. Tanto assim é, que os que conhecem a história na integridade, preferem abrir escolas a prisões. Mas voltemos ao acaso. Foi sol de pouca dura a satisfação dos habitantes dessa terra. Como em todas as alturas em que imperaram as árvores, tornou-se em breve o bosque num lugar sombrio, do género em que os recortes dos troncos sugerem faces assustadoras e que se convertem em lugares perigosos para meninas que vão visitar as avós.

Quanto aos lenhadores, a metamorfose não findou as suas dores. A seu tempo, o pinheiro reuniu um exército de esbirros desagradáveis entre os quais contava com largas trupes de rapazes de má índole que enviava munidos de lupas para queimar os pobres insetos num tormento de luz. Riam-se, esses ordinários, satisfeitos por traírem os que haviam aquecido as casas dos seus pais. Recrutou também corpos de higienistas, que por aqui e por ali deitavam um pó saboroso, irresistível às quitinosas criaturas, eliminando-as através da sua gulodice. Sentiam estes que faziam muito serviço público por verem a sua empoeirada ação como um ato de limpeza.

Satisfeito de tanta mortandade entre seres humanos, o pinheiro comovia-se da sua revanche. E, mais hirto, repousava tanto mais quanto menores eram os relatos de inseticídio que lhe chegavam. Descansava, enfim, sabendo destruídos os seus inimigos, votados ao esquecimento. Bem fazia, em descansar. Afinal, eram já tão poucos os malvados insetos.

Foi quase vitorioso no seu longo reinado. Mas tão rápido como começou, acabou por ruir. Insensível no seu robusto tronco, não foi capaz de cheirar o seu próprio caruncho. Ofuscado pela sua magia, não viu que convertera lenhador em térmita. Uma pena, visto que muita árvore roer a térmita quando a obrigam a viver no escuro.

Roído o seu lenhoso coração, caiu por terra o grande pinheiro, e com ele se desfez o encantamento. Por todo o lado surgiam de novo lenhadores. Mas o desencanto viera por capitulação. Tinha-lhe faltado o verbo que dá corpo à magia, tornando deficiente a nova metamorfose. Os lenhadores voltavam, mas parte de si mantinha as qualidades do bicho. Talvez por isso, não lhes tivesse bastado voltar para as suas famílias, não podendo descansar até vingar, correndo com pinheiros, cachopos e pulverizadores até acharem que não havia mais deles. Tinham recuperado as pernas, as mãos, os braços fortes, os machados afiados. Mas o cérebro ficara o de térmita, apenas faziam roer.

Depois de massacrar os inimigos, deitaram-se a descansar, sonhando sonhos em que não mais houvessem pinheiros mágicos. Na sua mente de inseto, não podiam lembrar que assim se enganara o pinheiro. Que nenhum inimigo se mata por decreto.

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