Bllorkzork e Zzollprr

O duo tinha começado a viagem de retorno depois de terem passado os últimos quatro ciclos de órbita lunar a observar e a catalogar os vários factos que recolhiam do pequeno planeta azul do sistema Sol. As missões procuravam mapear os cantos da galáxia onde se desenvolviam espécies capazes de navegar as estrelas. Esta era a sétima missão que Bllorkzork fazia com o novato Zzollprr, mas antes disso já acumulara quase trinta missões em outras equipas, o que lhe conferia a infeliz incumbência de coordenar as ações e produzir os relatórios.

Com as coordenadas introduzidas na nave, Bllorkzork dedicava-se a essa reportante tarefa. Era coisa que nunca o confortara, já que lhe parecia redundante a produção de semelhantes panfletos quando os seus instrumentos de registo eram mais que capazes de produzir toda a informação necessária. Aparentemente, algum empregado de escritório ocupava o seu tempo a ler os vários relatos, justificando assim a sua existência.

Já preenchera grande parte do formulário de missão, quando chegou à classificação de risco. Na sua carreira já tinha visto de tudo. Algumas das espécies eram facilmente classificadas como "Potencial aliado" e chegara até uma vez a encontrar uma do tipo "Parceiro ideal". Eram as tipologias com que estereotipavam as espécies capazes de se mobilizar para lá da sua atmosfera inicial, e que eram de trato amigável, pacífico, interessadas sobretudo em perceber melhor que raio se estava a passar pelo cosmos, na tentativa de responder a questões como "de onde vem um gajo?" ou "como é que esta coisada toda veio a suceder assim?". Também já tinha encontrado espécies que se estampavam como "Problemático". Eram do tipo que havia emergido do seu astro natal com uma grande vontade de explorar o que viam à noite. Muito bons em mineração e extração energética, mas menos interessados no conhecimento, se este não proporciona vantagens competitivas. E pouco interessados na competição sempre que esta não os favorece. E nesses casos, pouco dados ao pacifismo. Por sorte nunca havia experimentado uma espécie do tipo "Extremamente Perigoso", reservada àquelas que eram tão felizes na sua violência que até se davam ao trabalho de produzir alguma ciência e tecnologia desde que isso lhes permitisse ir mais longe para fazer mal a alguém. Conhecera uma vez um tipo que tinha visto uns assim. Coitado. Já nem dizia coisa com coisa. Deve ter ficado afetado. Diziam que antes disso até era normalzinho, mas quando o conheceu já era famoso por mandar bocas porcas e dar chapadas sem necessidade nenhuma.

Bllorkzork ponderou um tempo antes de se decidir. Ao terminar ponderou novamente. As redundâncias existiam para alguma coisa. Só então se permitiu classificar a espécie em causa como "Inverosímil". Não fora uma escolha fácil, já que obrigaria a uma justificação, coisa para a qual tinha pouca predisposição, visto estar habituado a executar procedimentos cuidadosamente esculpidos pelos maiores especialistas da laia ao longo de éons de prática científica. A classificação por que optara havia sido incluída para acomodar uma possibilidade teórica, mas cuja probabilidade se estimava mínima. Fora concebida para catalogar espécimes cujo domínio da tecnologia espacial resultava mais do erro do que da competência. O tipo de situação que à primeira vista pareceria normal, mas após um exame sóbrio se revelaria absurdo. Até à data tinham sido identificadas apenas duas espécies sob esta designação, e para ambas a classificação fora alterada em missões subsequentes. Em ambos os casos tratavam-se de coletivos do tipo Problemático, cuja ocasional e errática capacidade de produzir conhecimento não fora observada durante o tempo das missões que os haviam descoberto. O resultado foi a atualização da metodologia de observação, alargando o seu período de forma a recolher uma maior variação de comportamentos antes de uma avaliação. O alienígena havia ponderado precisamente essa possibilidade, visto que o tempo de observação poderia não ser suficientemente expansivo para encontrar todas as possibilidades daquela variedade. Concluíra não ser o caso já que a informação que detinha colocava esta espécie no percentil superior das espécies quanto à amplitude de comportamentos diferenciados. Produzia a seguinte justificação:

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Como observável na maioria dos registos anexos, a espécie SSVE0001 é biologicamente do tipo estadial, conhecendo uma curta fase larvar na qual se locomove desajeitadamente sobre quatro apêndices. A partir daí a locomoção passa a ser feita sobre dois apêndices, e o desenvolvimento inclui uma longa fase em que as mudanças que sofre são menosprezáveis, e uma fase de declínio muito longa, exceto no seu máximo, momento em que acelera até um ritmo quase tão célere como o da fase larvar. Nessa altura fazem o obséquio de ir perdendo as faculdades que conquistaram na primeira fase, embora se recusem a retornar à locomoção sobre quatro apêndices, que seria a estratégia óbvia a uma espécie um pouco menos bruta.

Evidentemente são criaturas capazes de algum cálculo, embora apresentem uma confiável resiliência ao mesmo. Escapam à matemática com as forças que têm. Tornam assim difícil a sua avaliação e previsibilidade a quaisquer inteligências externas, mas folgamos em notar que o mesmo sucede entre eles. Notámos, por mais que uma vez, que alguns entre eles se esforçam estatisticamente, desenvolvendo toda a variedade de análises sobre os seus congéneres. Entre estes, os mais capazes deixam-se abater pela frustração por cada vez que os seus modelos se revelam insuficientes. Os menos ilustres mantêm convicção nos seus modelos, sugerindo entre si que é a realidade que deles se desvia por algum tipo de patologia.

São seres essencialmente químicos. Começando por serem criaturas carbónicas. E continuando por se recusarem a agir como numerais, insistindo em proceder como os elementos do cosmos. De facto, é essa a melhor comparação que se lhes pode fazer. Enquanto entre os algarismos sabemos que o aumento da sua quantidade implica um aumento dos seus efeitos, entre estes animais o aumento da quantidade produz efeitos díspares, tal como sucede quando se triplicam os constituintes do hidrogénio resultando um metal a partir de um gás, ou quando duplicando os constituintes desse lítio resulta um carbono não metálico. Assim são estas criaturas, cuja quantidade produz resultados de ordem tão diversa, que ao localizar um indivíduo com alguma competência aritmética não podemos presumir que a competência do grupo triplique por a ele juntar mais dois, nem devemos esperar que ao pegar num trio de seres violentos aumentaremos a violência por eles exercida se dobrarmos a sua quantidade. Com este problema nos deparamos, e se deparam também todos eles, dos ilustres aos imbecis, dos opressores aos oprimidos. Todos quantos observámos vivem na frustrada espectativa de adivinhar o que lograrão fazer, e apenas uns poucos parecem conseguir viver livres dessa tentação lógica, enveredando por uma coisa improfícua e substantivamente indesejável à ordem a que dão o nome de arte.

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O relator terminava a sua nota. Sentia-se satisfeito pela tarefa concluída. Mais satisfeito se sentia por fazer parte de um coletivo onde tais inconsistências eram inexistentes. Afinal, todos se comportavam exatamente como os demais. Enviando o relatório até aos anos-luz que distavam entre si e o planeta materno, retirou-se para o repouso merecido.

No esconso que fazia de cantina, Zzollprr comia uma lasanha. Não achava que valesse a pena perder tempo com relatórios e coisas dessas. Afinal, a Suprema Inteligência dificilmente perderia tempo com elas. Podia bem pertencer às espécies mais estatísticas do cosmos conhecido, nunca isso o tinha demovido de ser anómalo. Urgia apenas passar despercebido. O que não era assim tão difícil. E intuía que essa Inteligência Suprema não era assim tão grande, considerando todas as vezes que conseguira ser negligente no cumprimento do serviço sem uma única vez ser chamado à razão. O cume do conhecimento parecia mais baixo do que o seu colega supunha. 

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