réplicas dum terramoto (1)

Não raras vezes, o mundo tropeça e acaba refém do colo de um cobarde. Quando tal sucede, manda a prudência que saibamos esperar, aguentando com calma e alguma distração os tempos seguintes, pois neste mundo em que nem as mais rijas montanhas se guardam eternas, não será uma qualquer cobardia a disputar longevidade com o eterno. Embora, claro, seja mais desesperante sobreviver a lentidão duma cobardia, do que a duma montanha. Doutras vezes, a roda rebola roliça no recreio da coragem. Nestas alturas, os ânimos exaltam-se um pouco mais, o que tende a ser desagradável, mas também há maior chance de sonhar acordado, o que tende a ser adorável.

Eis a diferença: no colo cobarde, o mundo julga que a convicção deve vestir a roupa da ordem e do destino desenhado; no recreio corajoso, o mundo julga que o destino é a antevisão de uma convicção semi-impermeàvel, dessas que se molham e constipam, mas ainda assim tendem a recuperar mais fortes do que haviam tombado.

Sem darmos por isso, acontece que algum tempo atrás, a coragem assentou algures pelas bandas de Maputo, e por ali medrou o sonho de um retângulo onde as mulheres usam a palavra. Como uma trepadeira, o sonho brotou do chão, sem qualquer vergonha de ter as plantas dos pés enterradas na terra empapadas, e subiu em torno de uns fustes de pedra, desatento às origens ou princípios dessas colunas. Apenas subiu, como tudo o mais, na direção do sol. Sem quaisquer obrigações, sem a promessa do castigo ou de reprimendas severas, alimentado apenas pela convicção, o sonho galgou até cobrir um beiral, fazendo sombrinha às senhoras que ocupam dois em cinco gomos de uma fruta de senadores. Saibamos apreciar estas vezes, em que a alegria vence uma corrida que o medo julgava ser sua.

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