réplicas dum terramoto (2)

Quando se passam as pontas dos dedos pelos muitos espécimes que são os manuais de escrita de ficção, fica-se com a vaga sensação de haver, entre os seus redatores, uma plena concordância quanto a esta ideia: antes de vingar, um herói deve sofrer tantas penas quantas lhe sejam possíveis. Aliás, há quem recomende que antes de chegar ao Olimpo, convém a um herói passar pelas brasas, que é como quem diz roçar um coma ou a morte, pelo menos três vezes em crescentes quadros sintomáticos. A verdade é que quando uma pessoa se abeira demasiado da morte, sobretudo se o fizer sucessivamente, tende mais a produzir uma campa do que um reinado. Mas também é facto que a maioria das pessoas sente um calor agradável no peito quando ouve falar da vitória de David sobre Golias, sobretudo se nunca viu uma fenda ser projetada na direção de um tipo munido de gládio, notando que tal é pouco diferente de disparar um mosquete sobre um espadachim. Afinal, esse David seria mais próximo do arqueólogo canalha representado por Harrison Ford, que nos faz rir ao levar uma pistola para uma luta de facas.
 
As leis do reino da ficção são inversas das leis do reino da realidade. Daí que, nesse mundo verosímil, mas improvável, hajam dezenas de vitoriosos cheios de cicatrizes para cada Josef K, um genuíno derrotado. Mas ainda assim estes existem. E deste lado do espelho, o mesmo parece acontecer. Enquanto dúzias ou mais sofrem reveses em sucessão, acumulando mágoas e amputando membros que lhes tornam impossível a meiguice necessária para se escrever a personagem de uma ama carinhosa, que é como quem diz uma democracia saudável, ainda há raridades em que a coragem não se desvaneceu sob a dureza das estórias. Portanto, foi bem escrito este terceiro milénio, ao ter arrancado com uma primeira democracia assim feita, lá, no oriental Timor.

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