parábolas de Carlos Marques e Frederico Egas aos filhos duma revolução (3)

parábola do arroio

Vede aquela portentosa oliveira. Agora, olhai naquele sentido, deixando a atenção escorrer pela colina tal como faz o ouro que desliza evocando o ocaso. Acaso notais algum ribeiro, qualquer curso de água? Vós, que tendes a benesse de ser gentes de aqui, sabeis que tal curso apenas se mostra quando as águas crepitam nos céus. Mas notai que nem sempre o foi. Naquele tempo antigo, logo após se apartar a luz do breu, nos instantes colados ao divórcio das águas, o mesmo poder que moldou cascos, garras e unhas, deixou aqui concebido um rio. Logo o vendo, a oliveira disse "É fresco e agradável, e do seu mel nos podemos alimentar" e nisto sentou na beira do belo regato e começou a sorver desse sangue, e o rio sorriu, feliz por descobrir-se útil a alguém. Então vieram os choupos e perguntado à oliveira porque ali se detinha, ela o convidava a juntar-se dizendo "É temperado e húmido, com águas aceitáveis", e o ribeiro fez uma vénia, humilde por saber que nesta vida ser útil é uma bênção. Então vieram os teixos e vendo choupos e oliveiras se plantaram ali, e as oliveiras e choupos lhes disseram de imediato "Vai-te de aqui, neste lugar amamos a paz e harmonia que não poderão singrar se aqui estiverdes", ao que os teixos responderam abancando as raízes e as enterrando nas terras, o que também choupos e oliveiras fizeram dando isto muita mortandade a vários deles. Quando se cansaram destes massacres, as oliveiras e choupos resguardaram-se aqui e ali, os teixos depuseram-se nos entremeados e disseram, sorvendo das águas, "É apertado e mal frequentado, mas mata a sede", e o arroio tremia, já incapaz de servir todos estes senhores sem a benesse dos deuses da chuva.

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