parábolas de Carlos Marques e Frederico Egas aos filhos duma revolução (2)

parábola dos poetas

Por essa rua andaram dois poetas, de trato amigável entre si, mas que provinham de diferentes estações. Um, estival, gravava os seus versos nuns papelinhos que dobrava ao pressentir que estava completo. Olhava então para aquele pedaço de papel sem tinta à vista, imaginando a sua transmutação em algo de valor metálico. Quando reunia um bom conjunto de papéis, entregava-os nas mãos de um comerciante que os montava num objeto de feira. O outro, outonal, cuidava os seus versos ao ouvido do companheiro, resguardava-os nos ouvidos dos moradores da rua, protegia-os nos ouvidos de quem por ele passasse. Destes dois poetas sobram duas efígies de bronze. A de um é jubilada por toda a gente como a de um herói. A do outro sente-se como os grandes blocos graníticos numa serra, ou um banco de jardim.

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