parábolas de Carlos Marques e Frederico Egas aos filhos duma revolução (12)

parábola do incêndio

Fazeis-me recordar o bosque. A floresta é um ente que se pode descrever recorrendo a uma única palavra: injustiça. Isto sabem as plantas dóceis, pois nela as grandes árvores de copa pilham a luz e a água que a natureza decidiu partilhar com todas as criaturas verdejantes, as árvores, os arbustos e as ervas tenras. Depois de séculos de subjugação sombria, apenas brevemente pausada quando um relâmpago decide abrir uma breve clareira para as filhas mais frágeis do bosque. Eis que surge inesperada uma felicidade. O incêndio, quando explode, faz vibrar os caules de excitação. Lambendo a lenha robusta e as copas frondosas, o fogo engole, crescendo mais e mais até engordar todo, até secar os caules mais miúdos, até assar as sementes superficiais. Então esfuma-se, como cumprida uma missão aos deuses que lhe permite ascender aos céus. Atrás, deixa uma manta negra, onde nada se impõe sobre ninguém. Então ocorre o período por que tanto se havia ansiado. Por breves momentos, quando todas as sementes brotarem, haverá total irmandade entre todas as plantas.

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