parábolas de Carlos Marques e Frederico Egas aos filhos duma revolução (9)

parábola das caravanas

Havendo os seus filhos atingido a idade adulta, liberto das preocupações da criação o senhor de um deserto quis desembaraçar-se de outras insónias, como as provocadas por pensamentos acerca da sua sucessão. Para poder dormir, divisou um plano: chamou os filhos e disse a todos – Ide até às nossas províncias mais secas, onde as gentes flutuam sobre o dorso de éguas e dromedários, e divisai as leis que ali é mister imperarem.

O primeiro filho, tomando o direito de varão, exigiu dos irmãos a tentativa inicial. Chegou nas dunas com o seu exército, mandou parar as caravanas e perguntou quantas de estas cruzavam o mar seco sob mando de um mestre criado nos palácios e bibliotecas do seu pai. Notando que eram poucos, nomeou entre os seus prediletos aqueles que passariam a comandar frotas, indo ele na liderança de uma. Quando as caravanas regressaram, souberam os irmãos que nenhum dos valentes sobrevivera o périplo, sucumbindo ora pela inclemência do deserto, ora por se desviarem dos oásis, ora por excitarem motins mortais.

O segundo irmão, valendo o seu direito de ordem, partiu então com um exército e chegou frente às caravanas. Inquiriu sobre quais destas eram mandadas por doutos que formaram o espírito nos palácios e bibliotecas do seu pai. Sendo poucas, deixou a essas o direito de circular, e mandou o exército rechaçar as demais de volta às suas moradas. Quando as caravanas idas regressaram, a turba exigia a cabeça do príncipe sobre uma estaca, pois grassava a forme a pobreza.

O terceiro irmão, vendo a cobiça nos olhos dos mais novos, abandonou as pretensões ao trono e, desculpando-se perante o pai, desapareceu.

Mensagens populares deste blogue

Liberdade

Mimosa

Boa vontade