Levava sobre a pele três camadas de indumentária, a primeira para ocultar as vergonhas da própria visão, a segunda para prevenir a pele dos elementos, a terceira para provar conhecer o jogo que se faz em sociedade, deixando que os olhares exerçam justiças primárias acerca dos carácteres. Na mão levava um caderninho por estrear, repetição do ritual que inaugurara quinze anos antes e que nunca lhe tinha falhado. Também este acabaria por nunca terminar, ficando inerte de ideias no grosso da folhagem, mas faria ainda assim o seu papel para preservar a sadia superstição. Duas ruas abaixo do apartamento parava para beber o café e ouvir o que a freguesia comentava, descobrindo como sempre a meteorologia sentimental do dia, e se algo de importante se passava no mundo. Nesse dia atrasara-se, já tinham acabado os bolos de arroz, significando queque de manhã. Em frente e dois lances de escadas abaixo apanhava o metropolitano, partilhando as passadas com centenas de outros pares de solas, umas a...