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A mostrar mensagens de abril, 2023

um poema de primavera

Imagem
Na estação de sete rios

Uma ideia

Certo dia ficou com a mente assolapada por uma imagem. Uma imagem genuína, não dessas coisas pictóricas, mas daquelas que são produto da imaginação. Tão verdadeiramente imagética era essa imagem que nem sequer lhe era fácil conjurá-la. Se alguém lhe perguntasse, não sabia como a comunicar. Não haviam números nem letras capazes de significar aquilo que ela era. Mas pior que isso, nem sequer era fácil conhecê-la. Era de tal forma primitivamente imagem, que desafiava qualquer definição. Sempre que tentava criar-lhe limites, aprendia que não a podia diminuir a simples formas ou cores ou ruídos ou texturas ou cheiros. E de tudo, o mais trágico era não ser capaz de lhe tocar. Não literalmente, claro. Mas sempre falhava quando pretendia envolver a imagem num lençol mental. Parecia que, como um animal selvático, ela se afastava ao sentir qualquer aproximação. Que se escondia de toda a direta observação. Podia apenas saber-se dela pelo vulto que produzia no canto do olho. Era o tipo de imagem q...

Votação

Levava sobre a pele três camadas de indumentária, a primeira para ocultar as vergonhas da própria visão, a segunda para prevenir a pele dos elementos, a terceira para provar conhecer o jogo que se faz em sociedade, deixando que os olhares exerçam justiças primárias acerca dos carácteres. Na mão levava um caderninho por estrear, repetição do ritual que inaugurara quinze anos antes e que nunca lhe tinha falhado. Também este acabaria por nunca terminar, ficando inerte de ideias no grosso da folhagem, mas faria ainda assim o seu papel para preservar a sadia superstição. Duas ruas abaixo do apartamento parava para beber o café e ouvir o que a freguesia comentava, descobrindo como sempre a meteorologia sentimental do dia, e se algo de importante se passava no mundo. Nesse dia atrasara-se, já tinham acabado os bolos de arroz, significando queque de manhã. Em frente e dois lances de escadas abaixo apanhava o metropolitano, partilhando as passadas com centenas de outros pares de solas, umas a...

Pasmaceira

As duas mulheres olhavam cada uma para algo. Eram algos diferentes, como sempre lhes acontecia, por virtude de se sentarem sempre voltadas uma para a outra. Forçava a que sempre se encontrassem em perspetivas diferentes, o que tornaria qualquer conversa mais esclarecedora, caso não decidissem tomar a realidade por aquilo que dela experimentavam. Juntavam-se várias vezes, umas para poderem desfrutar da companhia uma da outra, outras por não poderem desfrutar de companhia melhor. De quando em vez faziam-no apenas porque se tornava mais fácil evitar reflexões fatais na presença de outros seres humanos. – O que não há é pachorra para isso – disse a mais velha. – Não há para ti! – replicou a outra – Para mim tem a velocidade ideal. Até dá para ir até ali e voltar a tempo. Escuso de ficar sentada em cima do aborrecimento. E fazer o quê com ele? Trabalhavam afincadamente a arte de pausar a existência. Felizmente a tecnologia do seu tempo desenvolvera-se a ponto de ajudar esse confronto ...

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