Pasmaceira
As duas mulheres
olhavam cada uma para algo. Eram algos diferentes, como sempre lhes acontecia,
por virtude de se sentarem sempre voltadas uma para a outra. Forçava a que
sempre se encontrassem em perspetivas diferentes, o que tornaria qualquer
conversa mais esclarecedora, caso não decidissem tomar a realidade por aquilo
que dela experimentavam. Juntavam-se várias vezes, umas para poderem desfrutar
da companhia uma da outra, outras por não poderem desfrutar de companhia
melhor. De quando em vez faziam-no apenas porque se tornava mais fácil evitar
reflexões fatais na presença de outros seres humanos.
– O que não há é
pachorra para isso – disse a mais velha.
– Não há para ti!
– replicou a outra – Para mim tem a velocidade ideal. Até dá para ir até ali e
voltar a tempo. Escuso de ficar sentada em cima do aborrecimento. E fazer o quê
com ele?
Trabalhavam
afincadamente a arte de pausar a existência. Felizmente a tecnologia do seu
tempo desenvolvera-se a ponto de ajudar esse confronto com o estar. Viviam
rodeadas de equipamentos, dispositivos, aplicativos, funcionalidades,
conteúdos, algoritmos e metadados. Era uma época muito agradável para se viver,
com toda essa ciência a ajudar a humanidade a não cair na tentação de se por a
inventar qualquer coisa que lhes desse prazer. Afinal, desse trabalho poderia
resultar qualquer espécie de orgulho, sentimento pecaminoso quando nascido do
mérito em vez da nascença.
– Então, como?
Com tanta forma que já se inventou de matar tédio. Quando tinha a tua idade era
bem mais difícil e mesmo assim conseguíamos.
– Fazias o quê?
Nem consigo imaginar. Mesmo com isto tudo às vezes parece que todo o tempo se
faz a fugir da atenção. A procurar escolhas sem as fazer.
A madura matutou
um pouco. Não se lembrava bem como se fazia para recordar. Era um dos processos
enfastiadores e repetitivos que por sorte as máquinas tinham decidido fazer
pelos seus senhores de matéria carnal e óssea. De qualquer forma, como se
tivesse mergulhado numa piscina, fechou os olhos e prendeu a respiração. Ajudou
de alguma maneira porque desse remexer líquido qualquer memória veio à tona.
Mas fora um esforço desabitual. Ainda bem que já não se era necessário proceder
assim a todo o momento.
– Ora, fazia-se
de tudo um pouco. Mais ou menos como hoje. Limitando a opção fazes uma escolha
qualquer. E se não escolhia nada, ficava apenas a ruminar pensamentos, desses
que já se mastigaram mas ainda não estão prontos à digestão. E não havendo
desses, podia simplesmente pasmar.
– É o quê?
– Como assim?
– Pasmar. O que
é?
A outra pasmou.
Parou por instantes, presa na imensidão do que existe sendo. Do ser entre tudo
quanto há. Existiu apenas, limpa da direção do desejo, livre de conhecimento.
Combateu o hábito cultivado da desistência, aquele que exercitava pondo os
polegares sobre ao vidro interagível, e a tela no lugar dos olhos. O conforto
da ligação às nuvens, esse bálsamo que passeava no bolso, emitiria sem
dificuldade uma solução. Contudo, o que lhe faltava não era precisão, mas
acuidade. A vivência partilha-se em sentires, não se contém em formulações.
– Não percebo a
pergunta. Nunca pasmaste?
– Se o fiz, foi
com outro nome. Às vezes fazemos as mesmas coisas com outros nomes. Por sermos
uma geração mais internacional, mais moderna, acho.
– Pode ser.
Pasmar é ficar assim, muito especado. Como se diz a olhar o dia de ontem. Dizem
também que é a pensar na morte da bezerra. Mas são tudo más aproximações,
porque quando pasmas não olhas propriamente para nada, nem sequer tens
pensamentos.
– Fico na mesma.
Que é isso então?
– É quando ficas
a fitar o infinito olhando para algo limitado. Mas não olhas nem vês nem pensas
nem ouves. Como se por uns instantes fosses estátua. Ficas para ali, parada a
olhar numa qualquer direção. E nada sucede. Como se hibernasses da vida porque
durante aquele bocado não há mesmo nada para fazer. Nem sequer ponderar. Só
mesmo esperar. Como se não estivesses ali. Já te deve ter acontecido, com
certeza. Não é provável que nunca tenhas ficado especada.
– Acho que não.
Se não tiver nada que fazer posso sempre abrir isto e ver o que há lá dentro.
Ou lá fora, mesmo que esteja enevoado. Desde que tenha dados móveis posso
sempre fazer que chova cá para dentro. Uma coisa qualquer. Mas com algum
movimento, para afugentar o medo de estar morta enquanto vivo.
– Sim. Deve ser a
diferença. Nós antes éramos mais animais. Especávamos apalermadamente, como
hoje já só fazem os gatos. Era porque tínhamos mais instinto e menos inovação.
– Devia ser
horrível! – rematou a mais nova.
– Porque havias
de dizer isso assim? Nós gostávamos.
Um ataque. Um
breve e incisivo ataque. Como agulha que rebenta um balão de saudosismo, que
rasga um saco almofadas. Há palavras que matam passados. Resta apenas a sua
negação, uma história reescrita para salvar inocências perdidas. Contra instrumentos
mortais não se fazem reflexões. A jovem viu o limite da sua maturidade na
resposta da outra. Faziam a descoberta dela em simultâneo. Propôs a reflexão
com a suavidade da ignorância:
– De certeza?
Ela ponderou.
Permitiu que no relevo do cérebro fluíssem rios de ideias. Observou como se
moviam, que trajetos sulcavam. Procurava entre eles as cascatas por onde se
precipictam as imagens mais furiosas, atraídas para um alçapão onde tornam a
meandrar com atitude e vocação. Algures percebeu um lago límpido, uma poça onde
a luz refletia sem perturbação.
– Nunca nenhum de nós se queixou.
– E continuas a
fazê-lo?
– Bem, agora não.
Temos as mesmas regalias tecnológicas que vocês.
– Devia ser
horrível, então. As coisas que para vocês não eram horríveis, vocês continuam a
fazê-las. Mesmo que nos perturbem a nós. Fazem delas tradição e coisas assim.
Mas as que abandonaram deviam ser horríveis. Senão concerteza lhes davam uso
ainda hoje.
A mais velha suspirou. Deslizou dois dedos sobre uma nódoa na pele. Pensou que nem todas as coisas horríveis se abandonavam à história.