Votação
Levava sobre a pele três camadas de indumentária, a primeira para ocultar as vergonhas da própria visão, a segunda para prevenir a pele dos elementos, a terceira para provar conhecer o jogo que se faz em sociedade, deixando que os olhares exerçam justiças primárias acerca dos carácteres. Na mão levava um caderninho por estrear, repetição do ritual que inaugurara quinze anos antes e que nunca lhe tinha falhado. Também este acabaria por nunca terminar, ficando inerte de ideias no grosso da folhagem, mas faria ainda assim o seu papel para preservar a sadia superstição. Duas ruas abaixo do apartamento parava para beber o café e ouvir o que a freguesia comentava, descobrindo como sempre a meteorologia sentimental do dia, e se algo de importante se passava no mundo. Nesse dia atrasara-se, já tinham acabado os bolos de arroz, significando queque de manhã.
Em frente e dois lances de escadas abaixo
apanhava o metropolitano, partilhando as passadas com centenas de outros pares
de solas, umas apressadas, outras serenas, algumas baralhadas, sinalização da
falta de prática. Parou para ajudar um casal jovem que descobria como se
movimentar na terrível tubularidade interior, obrigando-se a falar em
estrangeiro, língua de nacionalidade diversa da local. O casal agradeceu como
quem agradece um indígena que se presta a encenar uma coreografia que o turista
tem como típica desse povo atrasado que visita, e seguiram no sentido errado.
Encolhendo os ombros seguiu para a sua plataforma, o pensamento já ancorado nas
exigências da profissão.
Antoine repetia as frases no caminho para o
escritório. Repetia duas e três vezes cada uma, experimentando cadências,
ritmos, efusões, imaginando como cada um na sala iria reagir a cada ideia, como
cada opositor iria desmembrar as suas frases, pegando nelas e usando-as como
armas de arremesso contra si. A boca guinava acima. Desta vez encontrara a
formulação perfeita. Repetia-as sem cessar, respirando no momento em que a
cauda de uma era abocanhada pela sua reencarnação, como se pela repetição as
pudesse gravar nas paredes da garganta, para que nela ecoassem sem necessidade
de razão.
A disputa integrava o serviço como se de um
ingrediente secreto se tratasse, impedindo que a concorrência se apropriasse
facilmente da receita com que se aliciam os mercados. Das lutas intestinas se
expeliam sempre resultados com odores subtilmente dissimilares, mas ainda assim
de consistência confortável graças ao método rígido com que tudo o mais se
fazia. O interesse de cada qual se espelhava desta forma em algo do que faziam.
Passavam dois anos desde a última vez que a sua visão singrara, colorindo o
trabalho do coletivo, e Antoine confiava que desta vez quebraria essa
desconfortável tradição. Por isso ensaiara o seu falatório, considerando a
posição que esperava que qualquer dos colegas tomaria, e aperfeiçoara o sentido
das palavras para prevenir armar os opositores.
O truque, assim descobrira, era armadilhar a
arguência, camuflando-a de subjetivismo, artihando-a de pessoalidade.
Descobrira que a facilidade com que um opositor se joga sobre uma proposição
objetiva, apedrejando-a com pedaços de realidade, era fortemente temperada, ou
até mesmo anestesiada, pelo prurido de negar uma perspetiva emocional, e pelo
regime de nojo que a sociedade impõe aos que quebram esse tabu.
Subia os degraus devante ao prédio. Suspirava
ao quarto, desprezando o caudal de ar gasto pela maquinaria torácica. Pausou.
Na noite anterior fora árduo o desafio de conquistar o sono. Uma irritação
comichava no fundo do seu ser, aquela que sempre a incomodava nas vésperas de
decisões. Em parte era culpa. Sabia que antes tudo era mais fácil. Mas a
estonteante obsessão democrática viria a ser maior fonte de dores de cabeça do
que considerara quando jovem. A rotina da vida laboral tornava clara a bondade
inerente às coisas cristalizadas em processo. E expunha o perigo da opinião.
Mas o mundo era democracia. Era debate e consenso. A rejeição da peritagem e
gestualidade formulaica. Que ideia extraordinária, que o mundo seja lugar de
caos. Fosse a natureza como a humanidade e estaria a gravidade ao serviço de
ativistas, as chuvas cairiam por capricho referendário, a sismologia teria
vocação eleitoral. Pudessem os homens e as mulheres entender isso e deixariam
que os caminhos fossem traçados pelos matemáticos, esculpidos na pedra pelos
especialistas. E não estaria ali, no quarto degrau, ansiando para não perder o
canapé verbal que teria de usar com a equipa. Suspirou mais. Depois caminhou.
A porta deslizou, a sua tarefa decidida por um
sensor devidamente parametrizado. Como ela, assim fechou a porta do elevador,
abrindo apenas no piso desejado. A luz do corredor despertava para recosturar a
sombra aos seus pés. Por todo o lado lhe acudiam apelos a essa normalidade, à
feitura de uma realidade em pleno funcionamento, livre do empecilho do arbítrio
liberado. A sala de reunião estava aberta, cinco das cadeiras ocupadas. Entra e
repousa o corpo na sexta. Conclui o grupo, sem o terminar. Fecha-o abrindo-lhe
futuro.
Arrancou o demissionário fazendo enumeração.
Do que fez, que prometeu, organizou, geriu e administrou, delegou e instituiu
para que se realizasse. Depois suspirou em pena do sonho que ficaria por
cumprir, exprimiu luto pelo não ser. Um e quase dois ficaram de convencimento.
O mais iludido aplaudiu usando as mãos e fez peditório por renovação com a
boca. O demissionário dançou experimentado, era momento de espaçar para um
outro alguém, não quedaria por não magra maioria. O segundo convenceu, contou
consigo o quarto da dúzia, uma limpa metade.
Orou então o predecessor, riscando a voz de
staccato como um alarme que desperta do sono seguidor e relembra o ético
princípio do tempo de antena. Também o seu fora sonho amputado, um sonho que se
mede em estatísticas e percentuais. Ficara completo apenas em fração, somente
num número em dívida para com outro. Ajeitou mais contas e descreveu funções,
tudo se poderia fazer. Convenceu ninguém.
Um outro tombara para o sonho do
demissionário, em fuga de tanta razão. Era a maioria que desejara, aprontava a
manutenção. Antes, era caso de motivar quem respirava em suspiros. De jorrar
para o ar os sons ensaiados.
Antoine fez apelo centrado em eu, aquecido por
um fogo ensimesmado. Cantou sem encantar. A perita execução não escondia o
escárnio pela estratégia pessoalizada.
O demissionário rosnou, refazia-se candidato.
Fez glória por seis votos a nenhum.