Uma ideia
Certo dia ficou com a mente assolapada por uma
imagem. Uma imagem genuína, não dessas coisas pictóricas, mas daquelas que são
produto da imaginação. Tão verdadeiramente imagética era essa imagem que nem
sequer lhe era fácil conjurá-la. Se alguém lhe perguntasse, não sabia como a
comunicar. Não haviam números nem letras capazes de significar aquilo que ela
era. Mas pior que isso, nem sequer era fácil conhecê-la. Era de tal forma
primitivamente imagem, que desafiava qualquer definição. Sempre que tentava
criar-lhe limites, aprendia que não a podia diminuir a simples formas ou cores
ou ruídos ou texturas ou cheiros. E de tudo, o mais trágico era não ser capaz
de lhe tocar. Não literalmente, claro. Mas sempre falhava quando pretendia
envolver a imagem num lençol mental. Parecia que, como um animal selvático, ela
se afastava ao sentir qualquer aproximação. Que se escondia de toda a direta
observação. Podia apenas saber-se dela pelo vulto que produzia no canto do
olho. Era o tipo de imagem que se sente estar atrás das costas. Que tem a
efémera existência da palavra que nunca aprendemos mas achamos estar na ponta
da língua por conhecermos suas similares.
Durante meses acartou essa certeza duvidosa em
isolamento, até que um dia ponderou se alguém alguma vez descobrira esse mesmo
senso.
Na década que se seguiu partilhou o corpo com
bibliotecas e arquivos, a atenção com palestras e missas, buscando em cada
momento a mais subtil alusão à frustrante ilusão que carregava dentro de si.
Conheceu peritos e especialistas em matérias da filosofia metafísica e dos
mistérios revelados, passando horas a ouvir todos quantos discursavam sobre
essas invisíveis coisas que apenas se dão a conhecer ao espírito mas desafiam
as matemáticas.
Leu então uma utopia, e a experiência de cada
página lhe convocou tremores e convulsões tais que se certificou que a coisa
que conhecia respirava um ar de quem congemina sociedades. Retornou às estantes
e conferências, privou com ensaístas e comentadores e legisladores e mestres da
política, e embora a imagem animasse, mais com certos que com determinados, os
movimentos que produzia mantinham-se oclusos. Algo nela havia que se refugiava
do esclarecimento. Reparou nesse compasso que os mais lúcidos sobre estas
imagens eram o que mais sofriam a sua intangibilidade, os quais eram raros e
até nenhuns entre aqueles que se dedicavam a ensinar os significados delas. Os
que faziam da doutrina profissão era porque dominavam variantes pobres dessas
ideias, esqueletos delas feitos de madeira ou pedra, vestidos que pareciam
guardar as suas formas mas dos quais apenas se aprendia de que linho eram
feitos, figuras capazes de representar coisas ilimitadas, e outras perversões
do género, que embora deem grande satisfação à estima própria, pouco mais fazem
pela senda da verdade que afastar dela as gentes.
Se procurava quem soubesse de imagens como a
sua, era na rua, lugar de encontrões, onde melhor probabilava encontrar alguém.
Por suposto até um que estivesse inteirado da sua. Viu alguns que esgazeavam,
por valas e becos, os olhos registando véus aquosos em terra seca. Eram os únicos
que encontrou capazes de tocar as imagens que viam, ainda que apenas por breves
instantes e muito apoiados por toda a maneira de suportes, dos tradicionais aos
tecnológicos, a maioria de base herbal. E também os muito velhos podiam tocar
em qualquer coisa, mas era coisa diversa da sua e muito comum em dadas idades.
Não eram imagens de que se aproximassem, mas imagens que deles se abeiravam,
refrescando os seus ossos cansados de dentro para fora, libertando-os do amor
pela vida como uma criança liberta os pais de promessas de alimentação regrada.
E também, num bar aqui, numa taberna ali, uma
e outra figuras teimando a sua unicidade, produzindo individualidade com copos
espirituosos, destranquilizadas, alarmadas por um qualquer medo, alguma pesada
insaciedade. Eram tão próximos de si, tão mesmo dos seus, que se sentava horas
na companhia de um licor, integrando-o como via os solitários companheiros
fazer. Era esta a sua única comunhão, incapazes de qualquer outra.
A coisa, essa obstinava em fugimentos. Afluía
apenas para que a conhecesse em ignorância, para lhe permanecer em vazio
presente, para que não pudesse esquecer o invisível que ocupava a vista, para
sofrer o reumático sem mudanças de tempo. Abandonou buscas, doutos, sábios,
conhecedores, refletores e pensantes. Abriu mão de refúgios, intuições, dons,
estupefacientes, químicos e álcoois. Permitiu-se ser povoado dessas dores que
há muito com ele viajavam, aceitá-las parte de si, conviver dessa vizinhança.
Só então lhe percebeu o peso. Um quisto, nódulo
informe, insurgia na debilidade do que não tem matéria. Deslizava pelos
sentidos como uma serpente repleta de pecados por cumprir, um bazar de
promessas feitas de desejo com preçário que faz dívida nos demais. Cambiante
como uma geleia que ensaia todas as fôrmas sem perder alento na mudança,
essência tão viva que renuncia a pousar, voando a todo instante para perto e
para longe e em todas as direções, alimentada por tudo que é sensível, por nada
que é sensato. Com cada célula reformada, cada nova unidade genética,
reformando a sua constituição. Uma sombra em fuga perpétua de qualquer luz,
dançando com o movimento e a morfologia da matéria enrugada. Pensara-a miolo
sem côdea, e descobria-a todas as coisas e coisas nenhumas, um cordão umbilical
entre si e um indestinável porvir.
É a vontade, concluiu. Substância de imagem
por desenhar. Como a baleia que a vontade imprime no futuro do anzol, é ente
que se reduz na realização. Abocanhando a morte não pode evitar fazer-se
matéria pútrida.
Que dela fazer? Que afazer? Passeara os
corredores de quem amestrara as suas ideias, daqueles que foram céleres a fazer
delas guias. Conhecera o fado desses que dispunham de certezas nas palavras com
que as aprisionavam. Muitos havia conhecido que ambulavam com os planos de
construção de tais cemitérios. E vira os que se faziam reféns de distração para
evitar essas mortes fadadas. Deixaria a sua imagem na liberdade guitada, um
papagaio de papel preso no pulso da sua pulsão. Indizível, não faria prisioneiros,
como fazem as ideias sujeitas à violência da concretização. São saudáveis
apenas as imagens em constante transfiguração.