Mensagens

A mostrar mensagens de outubro, 2022

Sétimo andar

Deus tinha trabalhado tanto por seis dias que quando ao sétimo foi cochilar acabou por roncar tanto que acordou passado muito tempo, para mais de uns quatro mil anos dizem os especialistas, o que foi uma pena porque lhe passaram ao lado uma série de eventos interessantes que ele acabaria apenas por aprender parcialmente lendo livros de popularização de história, que como se sabe, são falhos nas coisas mais comuns. Ao despertar reparou que muita coisa havia mudado, que as gentes por ele criadas tinham inventado civilizações e códigos morais, e até que haviam aprendido a fazer vinho e deboches sem qualquer ajuda suprema. Entre todas estas coisas que lhe suscitaram interesse, nenhuma o fez mais que a descoberta dos apedrejamentos que se faziam a mulheres vaidosas. Confuso com tudo isso, mandou chamar um dos seus anjos para o encarregar de avaliar a situação. Disse-lhe assim: – Zé Canivete, meu querido anjinho, como te informei, sei tudo, mas mais te digo que não compreendo nada, pelo qu...

Papões

Manhã de segunda-feira – Eles não fazem nada – dizia a pequena Cátia – Ainda ontem à noite lhe voltei a dizer que tinha medo, e ela diz «Não está ali nada» e depois vira as costas e fecha a porta com as luzes todas apagadas. – São todos iguais. Não ligam – reforçava o Tónito – Só lhes interessam as coisas deles, as que passam na televisão quando não há bonecos. E se dizemos alguma coisa riem-se. – É porque estão habituados a estar sempre por cima de nós, sempre a mandar, sempre a decidir, como se nós fossemos animais de estimação – concordava a Manuela – Quando peço ajuda riem-se como se riem quando o gato mia desesperado porque quer ir à rua. – Não são todos assim – tentou a Maria – Os meus espreitam sempre e só depois dizem que não está lá nada. E ainda me dão um beijinho e um abraço antes de fechar a porta. – Fazem isso para gozar contigo – cuspiu o Tónito – e tu és pateta se vais nessa cantiga. – Mas eles gostam de mim – disse a pobre, avermelhando quando os outros três...

Erumavez

Muito tempo antes, tanto quanto se precisa para que entre os que vivem sobre memória real de como era, era bem diferente esta selva. Como se sabe, mandava sobre ela o leão, cuja realeza se contestava de quando em vez, em princípio por outros leões, e que sobre todos regia impedindo quaisquer outros de deixar crescer em torno da cabeça algo que se aproximasse de uma coroa. O governo era conseguido por caprichos devidamente justificados pela força com que podiam abater recriminações, e legitimado pelas raras palavras da coruja, animal que evita o dia como um mediador imobiliário evita um desalojado, e que por força de ver mais noite que dia, se permitia conjeturar sobre a natureza das coisas, desimpedida dos travões da prova empírica por decorrerem a maior parte destas no período em que os matos se expunham ao sol. Ainda assim, muito respeitada era a coruja, por todos em geral, porque assim o ordenava o leão e nem lhe desejava conhecer a mão de perto, e pelos ratinhos em particular, porq...

Mimosa

Mimosa crescera pastando as ervas secas e pobres do planalto. Gozava de amplos campos pobres em pasto, e de boas companhias com quem partilhava a míngua. Lá de cima tinha uma incrível vista sobre a paisagem, tão bela que um viajante com pendor estético decerto sobre elas verteria boas aguarelas. Mas como acontece de forma regular com quem vive certa paisagem, não perdia Mimosa muito tempo a deixar que tais visões lhe aliviassem o peso do dia a dia. Como as suas comadres, absorvia-se no árduo trabalho de absorver a pouca nutrição que aquela palha lhe votava. Certa vez que ruminava o seu repasto, comentou a sua frustração com as vizinhas. Tanto tinham que mastigar que os seus robustos dentes rápido se gastavam, enquanto a barriga permanecia murcha de fome. A boca rangia coberta por uma calçada gasta, enquanto as paredes do estômago se colavam entre si, por horror ao seu vazio. As outras concordaram, e presto se puseram a sonhar com melhores dias. Tempos mais tarde, surgiu no planalto...

Mensagens populares deste blogue

Liberdade

Mimosa

Boa vontade