Erumavez
Muito tempo antes, tanto quanto se precisa para que entre os que vivem sobre memória real de como era, era bem diferente esta selva. Como se sabe, mandava sobre ela o leão, cuja realeza se contestava de quando em vez, em princípio por outros leões, e que sobre todos regia impedindo quaisquer outros de deixar crescer em torno da cabeça algo que se aproximasse de uma coroa. O governo era conseguido por caprichos devidamente justificados pela força com que podiam abater recriminações, e legitimado pelas raras palavras da coruja, animal que evita o dia como um mediador imobiliário evita um desalojado, e que por força de ver mais noite que dia, se permitia conjeturar sobre a natureza das coisas, desimpedida dos travões da prova empírica por decorrerem a maior parte destas no período em que os matos se expunham ao sol. Ainda assim, muito respeitada era a coruja, por todos em geral, porque assim o ordenava o leão e nem lhe desejava conhecer a mão de perto, e pelos ratinhos em particular, porque eram entre os animais da selva os que menos consideravam a coruja um animal demasiado intelectual, demasiado alienado da realidade, uma vez que eram estes roedores os animais que mais conviviam com os aspetos fulminantemente musculares da ave. A força produtiva, nesses tempos, ficava ao encargo das formigas e abelhas, que tão bem organizadas estavam para os seus afazeres, que o rei se dignava a conhecer as suas chefias como gente da sua classe, ainda que de menor categoria, e às rainhas que assim chamava, informava as quotas que teriam que produzir para cada estação, as quais assim procediam, ordenando a execução às suas filhas, ficando elas com o encargo de parir quantas operárias conseguissem, e porque exploravam a sua própria gente, a carne da sua carne, sangue do seu sangue, em vez de indignar terceiros, esta opressão cativava o interesse das gentes mais progressistas que a tundra já conheceu. Sobre estes pilares civilizacionais floresciam todas as restantes vidas que coloriam os bosques e matos, cada qual cumprindo o que se lhes ordenava, buscando conselho nos momentos difíceis, garantindo que a sua liberdade não comprometia as produções dos insetos, que sustentavam todo o seu ecossistema. E tudo vivia em harmonia, com simples exceção do escaravelho o qual, desrespeitando a ordem pública e desafiando qualquer lógica, se dedicava apenas a engrandecer bolas de bosta que produzia por amor, e que era tratado por uns como tarado, por outros como louco, sobrevivendo assim, à margem, a qualquer conformação.
Mas nessa harmonia viam injustiças várias os
que, não tomando dela proveitos em forma de poder, se relegavam a papéis
menores nos ecossistemas, enquanto nos seus menores habitats se habituavam a
cumear as respetivas cadeias alimentares, fazendo crescer água nas suas bocas
ao repararem nas cadeias alimentares vizinhas, e dores cotovelares ao repararem
nos beiços gordurosos das elites leoninas. É então que começam as raposas a
uivar, a arfar, a ganir, primeiro entre si e depois com os restantes animais,
convencendo-os por esses colóquios que tal ordem que conheciam pouco tinha de
natural, mais não era que imposição com a qual conviviam, e por ser invenção
dos mais fortes animais se pintava de justa pelas suas cores, mas que nem mais
algum tinha por aceitável, exceto os que sofriam de síndrome de estocolmo, e
quanto a esses pouco haveria a fazer além de lhes ter dó. Tanta algazarra fizeram
que acabaram por convencer o resto dos matos que o regime precisava de
revolução, que o governo deveria ser repartido por todos, por economia,
representados pelos que melhor sabiam representar, ou seja, fingir serem quem
não são, e para evitar ter gente estúpida a governar conviria que estes
tivessem alguma astúcia, e por azar de uns e sorte de outros se reconheceu
serem as raposas quem melhor faria esse papel. Aos que criticavam este novo
governo, souberam as raposas responder que as decisões que tomavam se
informavam das sabedorias vigentes, as quais provinham das corujas, mas sendo
estas amantes do silêncio, tomaram os mochos o seu lugar, lembrando os animais
que entre coruja e mocho pouca é a diferença, tudo é animal de grande olhar e
forte contemplação, e se umas usam palavras caras, estes falam mais barato, e
anuem as raposas que deram uma olhada às finanças e de facto há que poupar onde
der. Aos mochos soube isto bem, sobretudo aos mais palradores, que sobre todos
os assuntos tinham certezas tão probabilísticas que julgavam insensato que o
governo as não seguisse, e que por serem tão estatísticas lhes permitiam
indicar por onde seguir ao mesmo tempo que os exoneravam de culpa sempre que
sucedia o indesejado, que era muita a vez, casos em que lembravam daqueles
porcentos e da margem de erro e coisas que tais. E porque se queria inovar a
economia como se inovava a organização do estado, deram as raposas, sob
indicação dos mochos, primazia à economia das cigarras, povo de insetos como os
outros, mas de tal forma criativos que ajudariam a transitar a sua base
económica da coleção e produção para as artes, coisa pela qual se conhecem
estes bichos, porque são bichos que se conhecem sobretudo por fábulas. Quanto
aos cereais e mel que se produziam, deixavam de satisfazer o sustento da selva,
mas para isso não havia que preocupar, outros matos e bosques andam por aí,
muito ainda se oprimem por leões apalavrados com corujas, basta com esses fazer
negócio, e a arte que agora se produz vale tanto mais que por pouca se encherão
os nossos celeiros. E tudo se resolveu, os leões se reformaram, o que lhes
agradou pois receberiam bifes vitalícios sem terem o trabalho de chefiar, as
corujas continuando os seus silêncios pagos pelo erário público, as rainhas das
formigas e abelhas chateadas pelo menor protagonismo embora não completamente
pois lhes permitiam continuar a abusar da sua prole, e os outros animais
convencidos que tudo era melhor já que tanta vez se dizia isso sem vergonha na
cara. E ainda os escaravelhos, que continuavam a enrolar estrumes dizendo :
quem corre por gosto não cansa, provérbio de escaravelho que em linguagem
humana diz qualquer coisa como : quem faz bolas de merda por amor não 'tá nem
aí.