Sétimo andar

Deus tinha trabalhado tanto por seis dias que quando ao sétimo foi cochilar acabou por roncar tanto que acordou passado muito tempo, para mais de uns quatro mil anos dizem os especialistas, o que foi uma pena porque lhe passaram ao lado uma série de eventos interessantes que ele acabaria apenas por aprender parcialmente lendo livros de popularização de história, que como se sabe, são falhos nas coisas mais comuns. Ao despertar reparou que muita coisa havia mudado, que as gentes por ele criadas tinham inventado civilizações e códigos morais, e até que haviam aprendido a fazer vinho e deboches sem qualquer ajuda suprema. Entre todas estas coisas que lhe suscitaram interesse, nenhuma o fez mais que a descoberta dos apedrejamentos que se faziam a mulheres vaidosas. Confuso com tudo isso, mandou chamar um dos seus anjos para o encarregar de avaliar a situação. Disse-lhe assim:

– Zé Canivete, meu querido anjinho, como te informei, sei tudo, mas mais te digo que não compreendo nada, pelo que aprendes agora que a sabedoria e o conhecimento são coisas distintas – isto ouvindo, o anjo fingiu anotar tais reflexões num caderninho, para dar a entender um afinco profissional que não possuía, enquanto o celeste chefe continuava – Reparo que acontecem estas coisas, de vaidades castigadas, e mal creio os meus olhos por não ter em mente a boa interpretação desses movimentos. Sobe ali ao sétimo andar e vê se percebes o que por lá se anda a fazer, para depois me vires explicar isso como deve ser.

– Vou já sim, senhor, até tenho aqui a chave – e mostrando a chave que tinha no bolso, trai-se a ele e aos compinchas o que muito irritou o senhor.

– Porque tens tu a chave do quinto andar, Zé Canivete? Já vos tinha dito que não quero que lá vão mexer nas minhas coisas. Tem de acabar esse mau hábito de irem para ali fazer festas, mudam-me as definições da aparelhagem e depois eu não sei como voltar a botá-la da forma como eu gosto.

O anjinho pediu muita desculpa, pensou em inventar uma mentira porque a omnisciência apenas valia nos momentos despertos, mas não teve imaginação suficiente para conceber petas, substituindo-as por um olhar marejado, que tendia a funcionar na mesma, como foi o caso. Levou um pequeno responso e seguiu caminho ao elevador, premiu o sétimo andar e foi tratar do que lhe fora encomendado.

Isto ocorreu numa altura bastante diferente da nossa, e em todo o entorno das civilizações haviam extensos mares de areia, onde se andava com imensa sede e muito calor durante os dias, que era quando brilhava o sol, e imensa sede e muito frio durantes as noites, que era quando o sol não brilhava. O acesso dos celestes ao piso mortal era assim feito nestas localizações, para ser muito difícil aos mortais aceder à morada dos anjos, e assim continua a ser, embora se tenham feito muitas religiões que inventam atalhos metafísicos que julgam ultrapassar essa condição material, como aliás fazem todas as ideias que pretendem subordinar a si a realidade.

Canivete andou pelo deserto muitas horas por dia durante vários dias, e poderiam ter sido menos se antes tivesse pedido ao patrão para lhe imaginar um camelo ali na hora, que ele pudesse trazer no ascensor, e valia-lhe apenas o não sofrer fome nem sede nem calor nem frio, por ser um anjo, o qual é uma coisa difícil de descrever mas que em qualquer descrição se assemelha bastante a um morto. Depois de muito andar começou a ver uma construção no horizonte, e seguindo na sua direção reparou que por largas horas ela parecia não crescer no campo de visão, como se se afastasse dele à mesma velocidade que ele se aproximava. Experimentou nesse momento um pouco de frustração, mas persistiu porque assim lhe tinha sido ordenado e ele era um anjo, que é coisa de árdua explicação mas que explicado de certas formas se parece assaz a um escravo. Por se manter em obrigação, enfim notou que o ponto de fuga mudava de forma, e breve para um anjo, que são algumas horas para nós, se deparou com a muralha de uma cidade e com a barulheira que se passa dentro dela, que era precisamente aquilo que buscava. Como não tinha documentação para usar a porta, entrou na cidade atravessando as paredes, coisa que lhe era possível por ser um anjo, essa coisa de impossível esclarecimento, mas que sendo esclarecida de certa forma soa a como se fosse algo que não existe.

Pela cidade permaneceu tanto tempo quanto lhe era permitido, pois aos da sua espécie tais visitas seguiam protocolos bastante rígidos para que não aprendessem a desfrutar dos prazeres dos mortais, o maior dos quais chamado sindicalismo, matéria causadora de crises de afrontamentos ao seu empregador, as quais se resolviam apenas com quantidades estranhordinárias de cócegas na planta dos pés, processo de incrível sofrimento para os anjos cujas asas eram depenadas para o efeito. No tempo que ali passou, Zé Canivete documentou tudo quanto foi capaz de observar e registar no seu pequeno caderninho, e eram essas coisas os comportamentos que observava, as acusações que ouvia, os decretos que se emitiam, as opiniões que circulavam, e ainda desenhava com a perícia de uma criança de quatro anos, as vítimas de tais crimes, e mais os seus acusadores, para que os estudiosos entre os seus irmãos apreciassem a litania de factos absorvidos podendo destes extrair importantes conclusões. Quando chegava à sua antepenúltima folhinha, retornava porque o lápis tinha acabado.

O caminho de regresso foi mais demoroso embora tão longo como o de ida, porque não levara consigo dinheiro suficiente para comprar um camelo que pudesse usar, e porque tinha ficado com os pezinhos cravejados de bolhas no tempo em que por ali andara, fazendo com que a nova peregrinação fosse acompanhada por uma musicalidade carpida que estivera ausente nos primeiros dias de caminho no deserto. Desta vez reparou em coisas que a concentração missionária lhe impedira de notar antes, como haverem pequenos animais vivendo no deserto, e também que tudo aquilo era muito aborrecido fora da cidade, nada de importante ou interessante se passava, e que talvez fosse também assim nas cidades se não inventassem os homens boas razões para se matarem uns aos outros de quando em vez. Em duas ocasiões perdeu-se por esquecimento de onde ia, por ser insuportável o calor, e ter sede desde que ali chegara porque as águas dos mortais são impróprias para o consumo dos seres imaginados, mas acabou por reencontrar a direção certa lembrando-se da pequena bússola que levava no bolso esquerdo, o da frente porque os anjos nada têm atrás.

Ao chegar a casa dirigiu-se ao segundo andar, onde funcionavam os serviços administrativos e departamentos de estudos dos anjos, e entregou o caderno para avaliação. Esta foi-lhe entregue não menos que duas horas depois, juntamente com o caderno, e ele pouca vontade tinha de a ir buscar, tinha ido ao sexto fazer uma sauna e um tratamentozinho aos pés. Lá se forçou à obrigação, levou tudo ao seu amo, que lhe pediu para ler o relatório em voz alta, por ser um líder à antiga, desses que são verdadeiramente analfabetos. Canivete leu e explicou, que a vaidade se tornara pecado por circularem rumores que o altíssimo assim determinara, informação que o indignou, e que essa vaidade se identificava pelo uso de cabelos mas nem sempre porque os há que mostram os seus sem perigo de acusação, ou pelo uso de roupas vistosas mas nem todas porque várias se exibem em finas vestes sem perigos, ou por outros zelos na aparência embora destes se exonerem as classes altas, ou embelezamentos vários descontando destes a ourivesaria, também por falta de humildade da qual se exclui o orgulho no nascimento, e por aí fora. Terminado o relato, deus sentiu-se esclarecido e mais ainda se sentiu aliviado, ouvira dizer que crescia o bom senso entre os homens pelo que temia que lhe deixassem de prestar vassalagem. Eram estas boas novidades, enquanto vivessem assim sem tino e critérios ondulantes, nada teria que temer. Tão feliz ficou, que se conta até hoje que permitiu que Canivete e mais quatro anjinhos subissem de novo ao quinto andar e festejassem como se não houvesse amanhã, que acaba por ser o caso nesse prédio onde o tempo não existe.

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