Papões

Manhã de segunda-feira

– Eles não fazem nada – dizia a pequena Cátia – Ainda ontem à noite lhe voltei a dizer que tinha medo, e ela diz «Não está ali nada» e depois vira as costas e fecha a porta com as luzes todas apagadas.

– São todos iguais. Não ligam – reforçava o Tónito – Só lhes interessam as coisas deles, as que passam na televisão quando não há bonecos. E se dizemos alguma coisa riem-se.

– É porque estão habituados a estar sempre por cima de nós, sempre a mandar, sempre a decidir, como se nós fossemos animais de estimação – concordava a Manuela – Quando peço ajuda riem-se como se riem quando o gato mia desesperado porque quer ir à rua.

– Não são todos assim – tentou a Maria – Os meus espreitam sempre e só depois dizem que não está lá nada. E ainda me dão um beijinho e um abraço antes de fechar a porta.

– Fazem isso para gozar contigo – cuspiu o Tónito – e tu és pateta se vais nessa cantiga.

– Mas eles gostam de mim – disse a pobre, avermelhando quando os outros três se desataram a rir. Depois ponderou como os podia convencer – E se tentassem pedir para eles verem também?

A proposta teve como paga um encontrão. A Manuela não gostava de vira casacas, pelo que tinha pouca paciência para as tretas da Maria. A Cátia foi ajudar a menina a levantar-se. Tinha pena da amiga, de como ela se deixava levar pelos encantos dos seus abusadores. O Tónito já não ligava. Tinha pegado na mala e dirigia-se à sala. Na semana passada tinha levado dois ralhetes por entrar tarde, e não lhe apetecia começar a nova semana da mesma forma.

 

Manhã de quinta-feira

– Vês aqui! – mostrava a Cátia apontando para as três marquinhas de um lado do antebraço – E aqui também! - dizia virando o braço para mostrar o outro lado.

À sua volta, a indignação e o pânico misturavam-se com a alegria da confirmação. O que mais se ouvia eram sussurros, uns perguntando a outros se já tinham visto, os outros afirmando que sim enquanto prometiam que aquilo era mais do que esperado. O Tónito, um pouco atrasado, chega e de imediato é informado do sucedido. Leva as mãos à cabeça num gesto de coreografia aprazível, dá três voltas sobre si mesmo e com duas valentes sacudidelas baixa os braços. A garotada posta-se em circunferência em volta dele e da Maria.

– Estão a ver? – gritou como se estivesse num pódio a convencer gente a votar nele – Há quanto os temos vindo a avisar? E quantas vezes fomos ignorados. Era apenas uma questão de tempo até algum de nós ser vítima.

– Mordeu-me – choramingava a Cátia – Vejam! – e mostrava o braço com tanto afinco que por pouco não o soltava para que pudesse passar de mão em mão.

– Não acredito – soou timidamente a Maria, assustada ao reparar que a sua verbalização fora ouvida.

– Vais defendê-los outra vez? – saltou a Manuela – E ainda por cima tens a lata de dizer isso em frente à Cátia? Não achas que ela já sofre o suficiente?

– Acho que foi ela que fez aquilo – disse simplesmente a Maria. Depois encolheu-se quando sentiu que os corpos à sua volta a abafavam. Por sorte, a contínua veio à porta chamar para dentro, pausando o conflito.

 

Manhã de quarta-feira

– Já viste o braço da Filipa? – perguntava a Manuela. Nos olhos misturavam-se o entusiasmo da fofoca e da confirmação com o pesar do acontecido.

– O Pedro e o Zé também – admitiu o Tónito – Está a tornar-se um verdadeiro problema.

Mais de uma dúzia exibiam e comparavam as marquinhas que traziam. Este e aquela com pequenas incisões na perna, um outro que as mostrava no rabo. A maioria, sem ter contas a ajustar com a imaginação, trazia-as no antebraço, tal como as vira em redor da bracelete da Cátia, uns dias antes. A pequena Maria tomava consciência da sua enfezada estatura como nunca o soubera antes, e decidiu que convinha à preservação da sua figura que reservasse as opiniões na guelra. Passou cabisbaixa entre os outros, esforçando-se para não produzir acrobacias com os olhos, já que se tornava óbvio que alguns miravam os seus passos.

Incomodada pela algazarra que efervescia, a contínua propôs-se investigar a temática que produzia tal entusiasmo, dirigindo-se aos petizes obscurecendo a sua tradicional natureza, ou seja, sem berrar com eles para que debandassem como pombos face a uma criança tresloucada. Observou por poucos segundos até concluir algo semelhante ao pensamento que se instalara na pequena Maria, uma ideia adjacente. Não podendo crer que quaisquer monstrengos se haviam materializado e atacado as crianças, até por presumir que em tal excecional circunstância os pais privariam a cria de escola nesse dia, tratando de primeiro levá-la a um hospital, sabe-se lá que doenças trazem os monstros na saliva, concluiu a educadora que eram os progenitores os responsáveis por tais mazelas, e pronto as comunicou à diretora.

 

Fim de tarde de quarta-feira

Mais de duas dezenas de adultos eram admoestados. Poucos sofriam a humilhação em silêncio, e apenas por ser sua natureza encarar a injustiça com brandura. Os restantes protestavam a injúria que lhes era dirigida, acusados de negligências e maus-tratos. A professora, adjuvada pela contínua, deixava o seu indicador direito estacionário sobre o ar, como se de uma acusação metafísica se tratasse. Ademais, sentia poder enfrentar a turba de encarregados pois tinha as espaldas aquecidas, não apenas pelos espíritos do além, como pelos de aquém, entre os quais se contavam quatro agentes policiais e sete elementos da CPCJ.

Três horas duraram estas provas, que lembraram aos crescidos a sua condição menor: eis que redescobriam estar perante as autoridades como estavam as suas crias perante eles. Fariam agora o que lhes era ordenado, num silêncio sem pios, apenas porque sim. O poder assim era, tão justificado nos corações de quem o exercia, como insano aos olhos de quem o sofria. Liberados, reassumiram os seus filhotes e voltaram a suas casas. Entre os pequenos, mais que um foi dormir essa noite embalado em raspanetes.

 

Tarde de sábado - festa de aniversário da Cátia

– É assim que a minha mãe faz, já vi muitas vezes – dizia a Cátia.

– Tens a certeza que é boa ideia? – questionava a Manuela, cujo traseiro ainda palpitava, corado das educações domésticas dos últimos dias.

– Continuam a não acreditar em nós, não é? – respondia a aniversariante.

Brandiam, junto à cama da anfitriã, um objeto semelhante a uma varinha de condão, das que as fadas usam para praticar bondades, mas munido de um gatilho como os revólveres dos heróis do oeste americano.

– Temos que ser rápidos – urgia o Tónito – se nos apanham, levamos outra vez, e o medo da palmada mesmo assim não se compara ao dos monstros.

– Tontos – repreendeu a Maria – será que não aprendem? Que pensam que vão fazer com isso? – e, decidida, ultimou – Vou-me embora – e partiu, esperançosa que a sua desistência apelasse à cobardia que certamente os outros também teriam.

– Não costuma ser assim – dizia a Cátia – é diferente do que faz a minha mãe.

– É sempre diferente – arguiu com ar solene o Tónito – no fogão é diferente do cigarro. A minha mãe usa também no cigarro e não faz a mesma chama. Tenta outra vez.

A menina tentou e, ao fim de algum esforço, conseguiu atear o cobertor.

– Vamos embora agora, rápido – dizia a Manuela, que tinha visto uma lareira em casa da avó – senão podemos magoar-nos.

– Espera – insistiu a amiga – quero ver se ele foge.

 

Noite de sábado

Os bombeiros terminavam de apagar as chamas. Os pais da Cátia viravam-se aos céus e perguntavam que seria deles agora. A polícia indagava sobre o sucedido, enquanto duas técnicas da CPCJ tomavam apontamentos. A Cátia não entendia como podia ser castigada pelo que fazia, visto ser uma profunda sede de justiça o que motivara as suas ações. Os vizinhos olhavam e não se intrometiam, para que lhes não fosse pedida a caridade de oferecer guarida ao casal e à pequena incendiária que criaram.

– E se fossemos viver na casa amarela ao fundo da rua? – perguntava ele.

– A das janelas azuis? Não tem crianças – respondia ela – e pior, tem um gato.

– Lá estás tu com a paranoia dos gatos! Também se assustam, dá apenas um pouco de trabalho.

– Assustam nada, só viram as orelhas na nossa direção e pouco mais – resmungava ela – Quase não fazem caso, desprezam-nos pela nossa imaterialidade.

– Mhmm – ponderou ele, reconhecendo o argumento – E que tal o terceiro esquerdo daquele prédio? Já lá vive um de nós no armário, mas são gémeos. Podemos ficar cada um debaixo de uma das camas.

– Está bem. Vamos ver se ele não se importa de repartir o quarto connosco – aceitou ela. Depois, lamuriou-se – Sinto alguma humilhação em ter que partilhar quarto com alguém na nossa idade. No tempo dos nossos pais, até mais jovens uns anos, já eles arranjavam as suas próprias casas para constituir família.

– Eram outros tempos – disse o monstrinho como quem repete um facto conhecido – Estes humanos vão tendo menos filhos, temos que nos habituar a repartir as crianças que há. A sorte é terem bem mais mobília que os que tinham antes.

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