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parábolas de Carlos Marques e Frederico Egas aos filhos duma revolução (3)

parábola do arroio Vede aquela portentosa oliveira. Agora, olhai naquele sentido, deixando a atenção escorrer pela colina tal como faz o ouro que desliza evocando o ocaso. Acaso notais algum ribeiro, qualquer curso de água? Vós, que tendes a benesse de ser gentes de aqui, sabeis que tal curso apenas se mostra quando as águas crepitam nos céus. Mas notai que nem sempre o foi. Naquele tempo antigo, logo após se apartar a luz do breu, nos instantes colados ao divórcio das águas, o mesmo poder que moldou cascos, garras e unhas, deixou aqui concebido um rio. Logo o vendo, a oliveira disse "É fresco e agradável, e do seu mel nos podemos alimentar" e nisto sentou na beira do belo regato e começou a sorver desse sangue, e o rio sorriu, feliz por descobrir-se útil a alguém. Então vieram os choupos e perguntado à oliveira porque ali se detinha, ela o convidava a juntar-se dizendo "É temperado e húmido, com águas aceitáveis", e o ribeiro fez uma vénia, humilde por saber que ne...

vintissinco dabris (2)

693 Tantas maravilhas eclodem quando raia este dia, que não admirará ninguém saber que assim sucedeu no ano sexto do reinado de sua alteza o Rex Flávio Égica, vencedor do canalha conspirador Suniefredo e salvador das pessoas de bem contra os infâmes ataques da linhagem ervígica, bem como de tantos outros males como aqueles que depressa iriam sucumbir à sua justiça, pois neste dia auspicioso se apresentava o antepenúltimo dos celebrados Concílios que fizeram da Toledo visigótica um reino de charme e sofisticação, posto que eram por costume engendrados por esses seres que têm por maior preocupação a ética e a moral, que são os monarcas. Belíssimo Concílio, descolou do secularismo pela profissão de fé, como de resto se principiam todos os eventos nobres que se conduzem num dia com esta gregoriana posição, ao divino e ao nobre, e já se preparavam os bispos, em número não diferente de três vintenas e mais a unidade, a versar sobre todalas cousas de importância à fé, à razão, e aos bons cost...

parábolas de Carlos Marques e Frederico Egas aos filhos duma revolução (2)

parábola dos poetas Por essa rua andaram dois poetas, de trato amigável entre si, mas que provinham de diferentes estações. Um, estival, gravava os seus versos nuns papelinhos que dobrava ao pressentir que estava completo. Olhava então para aquele pedaço de papel sem tinta à vista, imaginando a sua transmutação em algo de valor metálico. Quando reunia um bom conjunto de papéis, entregava-os nas mãos de um comerciante que os montava num objeto de feira. O outro, outonal, cuidava os seus versos ao ouvido do companheiro, resguardava-os nos ouvidos dos moradores da rua, protegia-os nos ouvidos de quem por ele passasse. Destes dois poetas sobram duas efígies de bronze. A de um é jubilada por toda a gente como a de um herói. A do outro sente-se como os grandes blocos graníticos numa serra, ou um banco de jardim.

réplicas dum terramoto (1)

Não raras vezes, o mundo tropeça e acaba refém do colo de um cobarde. Quando tal sucede, manda a prudência que saibamos esperar, aguentando com calma e alguma distração os tempos seguintes, pois neste mundo em que nem as mais rijas montanhas se guardam eternas, não será uma qualquer cobardia a disputar longevidade com o eterno. Embora, claro, seja mais desesperante sobreviver a lentidão duma cobardia, do que a duma montanha. Doutras vezes, a roda rebola roliça no recreio da coragem. Nestas alturas, os ânimos exaltam-se um pouco mais, o que tende a ser desagradável, mas também há maior chance de sonhar acordado, o que tende a ser adorável. Eis a diferença: no colo cobarde, o mundo julga que a convicção deve vestir a roupa da ordem e do destino desenhado; no recreio corajoso, o mundo julga que o destino é a antevisão de uma convicção semi-impermeàvel, dessas que se molham e constipam, mas ainda assim tendem a recuperar mais fortes do que haviam tombado. Sem darmos por isso, acontece qu...

parábolas de Carlos Marques e Frederico Egas aos filhos duma revolução (1)

parábola do ministro Um ministro que conquistara direitos e privilégios sobre um povo convocou em audiência os seus cidadãos. Recebeu o agricultor e lhe disse, Toma estes instrumentos e com eles salvarás os homens da fome, e este tomou as alfaias e se foi. Recebeu o professor e lhe disse, Toma estes instrumentos e com eles salvarás os homens da ignorância, e este tomou as sebentas e se foi. Recebeu então o médico e lhe disse, Toma estes instrumentos e com eles salvarás os homens da doença, e este tomou os fármacos e se foi. Então este ministro gozou a abundância de cada homem salvo da fome, a ciência de cada homem salvo da ignorância e a produção de cada homem salvo da doença. E por cada homem salvo da fome, o agricultor gozou calos e frieiras nas mãos ensanguentadas e jamais viu um de ventre satisfeito. E por cada homem salvo da ignorância o professor gozou exaustões e ansiedades e jamais viu um voando sobre o que havia aprendido. E por cada homem salvo da doença o médico gozou insóni...

vintissinco dabris (1)

-404 Quando o sol nascente banha de ouro o Taígeto a 25 de abril, a populaça de Esparta poderia tomar um café da manhã especial: afinal, hoje celebra-se a vingança de Siracusa. Por toda a parte poderiam correr crianças sorridentes, os seus pais e mães não menos contentes, voltando-se na direção do Pireu para a qual atirariam pedrinhas em festa. Simbolizariam assim a desmontagem em ritual humilhante das Longas Muralhas, na qual o vencedor do Egospótamo, o modesto e orgulhoso Lisandro, ruiu as paredes de guerra que sustentavam a vaidosa democracia de Atenas, queimando as trirremes desse pretenso policiador do Egeu ao Negro, supliciando o Dardanelos e o Bósforo, e espalhando a glória de Esparta sobre a Ática. Tristemente, não sobra nesta benfazeja data qualquer cerimónia orquestrada, nem pelo município e seus feitores, nem por qualquer honrosa comissão de festas, nem sequer por um par de avós que insistam em manter a moral antiga viva nas veias das netas. Passam por este dia como fora out...

vintissinco dabris

Hoje Há uma ideia que por vezes perpassa pelo espírito dos homens, aliás dos Homens, dos que são ou se tornam grandes, se por terem tocado nessa ideia, se por dela terem sido reféns, nunca se saberá, sabendo-se, no entanto, que não são grandes por medidos em volumosos centímetros. Eis a ideia: tão simpático, belo e beatífico seria, que onde quer que o sol possa produzir sombras, num mesmo instante e em todos os lugares, se convocassem os espíritos em uníssimo para orar a mesma prece. Ato falhado no contínuo da história, atestam a sua pujança a dispersão em que se encontram recorrências na crença e cópias no mito, em terras tão vastas que entremeadas por estranheza e omissão. E também os alguidares de sangue, fervorosamente ordenhado por qualquer pedaço de pele que tenha o infortúnio do pensar adverso. Há ainda outra ideia, uma experiência, uma que ocorre nos espíritos falidos, nos fracos, aqueles que são os primeiros a desencorajar os próprios desígnios, e que nunca conheceram nem a c...

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