68.ª Nota ao discurso de Vasco Gonçalves em Almada
A 18 de agosto de 1975, o primeiro-ministro Vasco Gonçalves proferiu um discurso em Almada. Quase cinquenta volvidos deste período, a leitura atenta, cuidada e imparcial desse discurso, informada por tantas décadas de democracia, oferece umas notas de leitura, que doravante de apresentam.
Por isso, agora que o fascismo, mercê das nossas hesitações, ambiguidades e querelas subalternas, eu aqui quando refiro nossas é de todos os portugueses, está a levantar cabeça para recuperar o perdido em vinte e cinco de abril, todos os antifascistas, todos os patriotas, todos os democratas, seja qual for o partido político a que pertençam... Porque nós defendemos, defendemos na prática, o pluripartidarismo, defendemos isso na prática, defendemos um país sem partido [68] único em que haja uma frente de partidos progressistas, partidos progressistas verdadeiramente interessados no socialismo, mas não é o que se passa hoje.
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Só mais tarde Alice foi capaz de compreender que tinha tombado precisamente nesse país. Muito mais tarde. Durante longos anos teria dito a si mesma que tudo não passara de um sonho, a sua imaginação fertilizada por boas estórias e férias simpáticas com sestas na sombra de macieiras e no colo de irmãs. Outros tantos perdeu, convencendo-se por todos os meios que, na inverosímil chance de se ter tratado de um episódio verídico, e na probabilidade ínfima de tal ter ocorrido sem uma gota de material alucinógeno, de ter saído da sua pátria por mecanismos não convencionais e ainda por explorar pelos capitalistas do ramo turístico. Só mesmo mais tarde é que Alice percebeu que tudo aquilo não fora mais que a sóbria visão do seu próprio país, um lugar onde todos conseguem ser partidários embora nenhum tenha partido, onde quem senta num trono é tirano e quem senta ao lado do trono é ainda mais cruel, onde a urgência nasce do medo e não da vontade, e até os loucos são partidários de alguém, embora menos o pareçam. Sim, no país sem partido, só se pode mesmo confiar nos que vivem solitariamente agarrados aos cogumelos, ou os canalhas que desaparecem em qualquer momento deixando atrás de si um rasto de gozo.