71.ª Nota ao discurso de Vasco Gonçalves em Almada

A 18 de agosto de 1975, o primeiro-ministro Vasco Gonçalves proferiu um discurso em Almada. Quase cinquenta volvidos deste período, a leitura atenta, cuidada e imparcial desse discurso, informada por tantas décadas de democracia, oferece umas notas de leitura, que doravante de apresentam.

Por isso eu repito, agora que a revolução está em perigo, e que o fascismo está a levantar a cabeça para recuperar o que perdeu [71] depois do 25 de abril, todos os antifascistas, todos os patriotas, todos os democratas, seja qual for o partido a que pertençam, seja qual for o seu credo, seja qual for a sua religião, sejam quais forem as suas ideias, desde que sejam sinceramente democratas e patrióticas, devem unir-se numa frente de defesa das liberdades democráticas, inabalável e indestrutível!



[71]

Só quando terminou de dibujar uma base de flores sobre o espaço tingido num pálido amarelo-torrado, ali bem entre o bloco de texto que falava sobre uma dinastia qualquer, a reprodução de uma tela antiga e a secção de perguntinhas que sempre povoam as margens, ou seja, só quando aquele lugar de ninguém foi habitado à custa de carvão e diligência é que Salicórnia Protosilva regressou em atenção ao lugar aonde, aquele em que lhe sobrava o corpo. Reparou, confusa e inesperadamente, que o ruído vago e calmo que lhe oferecia o transe não era a faixa sonora de uma cassete de meditação, e sim o rumor pedagógico de um sindicalista a soldo para o estado. Reparou mais. Ficou perplexa. Nos breves instantes – breves? Quão breves são eles? Será tão imediato produzir todos os fios de cabelo sobre uma página despida, quanto é rápido vê-los? Pode a arte ter a velocidade de um botão que se carrega? Pode-se fazer arte carregando num botão? Premir o lápis, vezes sem conta, sobre um papel, terá a duração de um botão que se prime? –, nos breves instantes que levara a pousar a impressão do orvalho nas folhas, perdeu cinco décadas. Perplexa! Em poucos – Quantos? – segundos, cinco décadas haviam corrido sobre o ar da sala, sobre algumas cabeças, sobre tampos de carteira, sobre o quadro... Ah! Sobre o quadro. Sobre o quadro. Ali, onde os vestígios se reservam mais tempo que o som pelo ar. Salicórnia esgueirou a cabeça, timidamente esgueirou a cabeça para cima. Empurrou a língua entre os dentes, os molares direitos, para que a ponta tomasse um pouco de sol. Observou com esmero o que já tinha decorrido.


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