70.ª Nota ao discurso de Vasco Gonçalves em Almada
A 18 de agosto de 1975, o primeiro-ministro Vasco Gonçalves proferiu um discurso em Almada. Quase cinquenta volvidos deste período, a leitura atenta, cuidada e imparcial desse discurso, informada por tantas décadas de democracia, oferece umas notas de leitura, que doravante de apresentam.
Assim é que se defende o partido único. Desejo também afirmar, para que ninguém tenha dúvidas do que é que eu penso, que quando fizemos o vinte e cinco de abril foi para dar a liberdade aos portugueses de terem o partido que quisessem a menos que fossem fascistas [70].
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Quintessência publicitária da democracia nos confins inversos aos nipónicos, as terras do ocaso, é esta tímida adesão à naturopatia: que a dose malograda de um veneno se combate com uma dose mais miúda do mesmo. E daí que, reclame após reclame, em cada capa de jornal, nas quadras que se gritam nas ruas, nas faixas pintadas à mão, se diga em gordas vogais, que o bom e belo está em querer mas em doses menores, em dose cada vez mais curta e mais pequena, em quantia tão limitada, tão lavada em água para a potenciar, que se seja fascista. Nesta querença maldita, julga-se que um fascismo nunca mais se um fascismozinho só e apenas, e, lá está, bem espalhado entre a malta, por residir na pujança do que foi diluído o veneno que derrota os venenos indesejados. Daí ser tão forte, no regime da imagem e do engodo, o estímulo ao fascismo pequenino. É que por tanto se desejar que seja fascista mas de menos, ali se semeiam os temperamentos que convém situar no âmago das gentes quando a lei dos fortes decide galgar sobre os montes e os vales, para que viva ainda no reduto da solidariedade um pedaço de retidão quando a lei dos altos estende a sua sombra das serras às praias, e assim em pedaços menores se afasta um terror do coração enquanto se decora toda a casa com as suas cores. Aliás, aquela pergunta, como era? A pergunta, em que dia da semana irá o povo ordenar?