69.ª Nota ao discurso de Vasco Gonçalves em Almada

A 18 de agosto de 1975, o primeiro-ministro Vasco Gonçalves proferiu um discurso em Almada. Quase cinquenta volvidos deste período, a leitura atenta, cuidada e imparcial desse discurso, informada por tantas décadas de democracia, oferece umas notas de leitura, que doravante de apresentam.

Mas não é hoje, com os ataques que se vêm às sedes dos partidos políticos da esquerda, e lá agora me chamarão outra vez “Pró-comunista, lá está o comunista a falar”. Não é desenvolvendo atividades que levaram ao desencadeamento destas ações que nós vemos de reação e do fascismo e que levaram ao assalto e ao incêndio [69] dos partidos políticos da esquerda, e eu chamo os bois pelos nomes, do partido comunista português, não é desenvolvendo ações desse tipo que se defende o pluripartidarismo.



[69]

A mãe acabava de colocar as sandes na mochila e já não era sem tempo, tornara-se impossível decidir qual das duas crianças estava mais infernal. O pai decidiu que teria sido melhor ideia ter mantido algum segredo, ter tomado a decisão apenas a dois, deixando que os pequenos descobrissem a aventura depois de mergulharem nela. As boas práticas educativas, aí estava o problema. Sim, negociar de forma ponderada e racional com as crianças, e sim, decidir o que fazer em conjunto com elas, tudo isso teria as suas vantagens (sobretudo quando se tem a sensibilidade moderna e avançada dos povos que são tão esclarecidos que decidem não ser nem um pingo mais que todos os outros povos que assemelham os seus mais atrasados antepassados ou os seus piores contemporâneos). Sim, tudo isso teria vantagens, mas também pequenas chatices. Entre essas, duas crianças que alimentam a sua euforia ao longo de três semanas estará (espera-se) entre as mais evidentes. Ainda a mãe não trancara a porta de casa e já o pai reprimia um mau hábito que lhe tinha ficado da infância (o de fazer um sinal com a mão e murmurar um qualquer tipo de pedido a uma criatura indizível). Um pouco de silêncio na viagem. Quase o evocara, antes da vergonha o conter. Entretanto a porta cerrara, as crianças já se tinham instalado no banco de trás, ela estava a abrir a porta do carro e o barulho já se prometia ensurdecedor. Neste dia, parecia que toda a família tinha deixado a paciência na véspera, e o ar enchia-se de perguntas sobre o tempo que ainda levaria a chegar e de suspiros na vertigem do desespero e da palmada. Talvez uma sandes, apenas uma delas ameada pelos dois, pensou a mãe com a mão a entrar pela mochila, apenas meia por cada uma daquelas bocas (para poder conquistar alguns segundos de paz). A mão, no entanto, recusava fechar os dedos em torno do pão embrulhado, temente que um solavanco, uma travagem abrupta, a simultaneidade do engolir e do falar, provocassem um engasgamento. Ora, realmente só faltava isso, perder ainda mais tempo apenas por um leve descuido, por uma tentativa de poupar os nervos por pouquíssimos segundos. Então a mão fugiu da mochila e correu para as têmporas (onde, de facto, fazia mais falta). O pai imobilizava o carro num minúsculo retângulo aninhado num mar de veículos (algo que se poderia parecer com o baldio de um ferro-velho que decidira colecionar plástico e fibra de vidro), a mãe saia do carro, abria uma porta traseira enquanto o pai abria a oposta, duas crianças eram cuspidas do assento pela excitação, quatro corpos atados pelas mãos seguiam caminho para o parque. Ainda de longe já sentiam os indícios da diversão a invadir os sentidos, os gritos da multidão a penetrar os ouvidos, o cheiro do fumo a entrar nas narinas. Paravam um pouco além, as duas crianças dando a mão à mãe enquanto o pai chegava três passos em frente para a fila do guiché. “Quatro bilhetes, dois para criança”, afirmava, e perguntava “Pode-se levar tudo, Quantos fósforos recomenda por pessoa”, “Aqui estão os bilhetes, Leve o que conseguir, Temos caixas de fósforos familiares se quiser”, respondia afavelmente o rececionista, acrescentando zeloso, “São tanto e tanto em moedas por favor”. Depois entravam, o plano bem desenhado na cabeça, primeiro o incêndio dizia a mãe. Para não andarem carregados com o saque todo o dia, primeiro o incêndio, depois o almoço. As crianças pulavam alegres, pensavam em sandes, desejavam conhecer as artes do fogo, essa dançarina exótica que certa vez tinham visto bailar sobre uma vela. Incêndio e almoço, depois a pilhagem. “Agora não larguem as mãos ou não voltamos a sítios destes convosco”, alertava o pai. E seguiram. 


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