67.ª Nota ao discurso de Vasco Gonçalves em Almada
A 18 de agosto de 1975, o primeiro-ministro Vasco Gonçalves proferiu um discurso em Almada. Quase cinquenta volvidos deste período, a leitura atenta, cuidada e imparcial desse discurso, informada por tantas décadas de democracia, oferece umas notas de leitura, que doravante de apresentam.
Por isso o povo a que todos nós pertencemos, militares e civis – porque nós, antes de sermos militares ou antes de sermos civis, somos portugueses, fazemos parte da pátria portuguesa – tem o direito de exigir que o movimento das forças armadas, seu braço armado, defenda a revolução, sob pena de deixar de ser o movimento das forças armadas. A revolução não é de ninguém porque é de todos [67].
[67]
Belas palavras? Bah! A revolução é daquelas artes sobre as quais se presta pouca atenção, se toma pouco cuidado, que vive de lugares-comuns e de mais ideias feitas do que de prática genuína. A mestria falha a quase todos os seus admiradores. Quem tem a revolução? Só os parvos perdem tempo com questões de tamanha idiotice. O surfista que vai ver o mar e se senta a estudar as ondas não passa de um medíocre. O verdadeiro surfista, esse que tem a arte a correr pelas veias, é aquele que sabe tirar partido da onda que tem pela frente. Entrega-se a ela como se não existisse no mundo nenhuma outra. Estes revolucionários todos, os que se preocupam tanto com viver e morar na revolução certa, não passam de mirones, transeuntes que passeiam ao longo da corda comprida da vida. Estão, como os leitores medíocres, convencidos que ainda há grandes livros ou grandes escritores, e que há formas decentes e próprias de os ler. Aprendem assim desde os tempos da escolinha, e reforçam essa liturgia lendo a conversa fiada dos que gostam de preparar listinhas dos livros importantes a ler, dos autores que se devem acompanhar. Confirmam a sua esperteza dizendo coisitas solenes sobre a escrita, tal-e-tal figura de estilo, com certeza, com certeza, e sem sequer o notarem, passam uma vida inteira sem nunca se entregarem à leitura de facto. E a revolução é como a escrita. É tal qual a escrita. Separa os escritores dos leitores, reconhecendo arte apenas aos segundos, e nisto matando toda a arte que desespera por nascer entre os primeiros. É que, igual que a escrita, também a leitura tem uma arte, e não apenas uma ciência, essa que nos tentam ensinar quando nos institucionalizam a infância e a juventude. A leitura tem uma arte que pode florescer e mostrar que nunca houve necessidade de reféns. Só os comatosos acreditam que não se pode ler uma bula de medicamentos senão de uma forma, que lendo uma não podemos ser acometidos de um ataque de riso, ou chorar comovidos, ou ruborizar a pele inteira em raiva incontrolável. Tudo isso é possível, até na listinha de ingredientes do molho de tomate comprado no supermercado. Basta saber ler. E se esse saber, como o da escrita, pode crescer aprendendo com os outros, também como o da escrita nunca poderá ser arte enquanto não for domado pelo lente, enquanto este não descobrir o seu estilo de leitura, enquanto não tiver mais apreço pelo seu estilo de leitura do que tem pelo texto que lhe corre pelos olhos. Ler à sua maneira, só isso pode tornar a técnica em arte. Ora assim mesmo com a revolução. De todos, dizem alguns, mas apenas porque se contam já entre aqueles para quem se faz aquela filinha triste e insossa que culmina na infelicidade a que damos o nome de autógrafo, essa dedicatória vápida e desencantadora de alguém que não nos conhece. Sim, os donos da revolução, aqueles que nela cortaram as suas iniciais para beber do seu sangue, gostam de fazer o espetáculo da humildade prometendo que desejam verdadeiramente partilhá-la. Mas os outros, os que apenas a testemunham, por que raio dirão eles o mesmo? Será que a crença na propriedade da revolução é suficiente para enganarem as próprias consciências, para imaginarem que não precisam de descobrir a arte de revolucionar? Quantos clamam estar entre esses, professando ao mesmo tempo todas as virtudes que suportam o sistema em que vivem? Claro que podem usar truques de magia verbal, dizer que no fundo no fundo o que o sistema prega não é o que o sistema caga, que no lodo do dia-a-dia a revolução está por fazer. Mas questionados sobre que revolução é essa de que falam, apontam para o mesmo cubículo a que aponta a maior cadeira do seu regime. Então, serão estes revolucionários de que revolução? A que já foi feita? Aquela que marcou as televisões ainda antes de terem dado os primeiros passos? Falta-lhes a arte. Há ainda uma diferença entre a arte de estar furioso e a existência da fúria: é que o artista decide quando larga o pincel; o escravo da fúria tornou-se incapaz de obedecer a si mesmo, e por isso só pode destruir, tornou-se incapaz de criar. A revolução, mais que uma noite barulhenta, é um dia novo. E revolucionário, é apenas quem já descobriu que sol quer ver a brilhar. E onde.