66.ª Nota ao discurso de Vasco Gonçalves em Almada
A 18 de agosto de 1975, o primeiro-ministro Vasco Gonçalves proferiu um discurso em Almada. Quase cinquenta volvidos deste período, a leitura atenta, cuidada e imparcial desse discurso, informada por tantas décadas de democracia, oferece umas notas de leitura, que doravante de apresentam.
A revolução, a nossa revolução, é do povo português. O tempo do paternalismo, dos mandões, dos senhores [66] da revolução, dos donos do país, acabou.
[66]
Andando à deriva pelo mundo, um estranho forasteiro foi dar com uma aldeia
perdida numa serra na qual já não se avistava um estrangeiro há tantas décadas
que os mais velhos nela só guardavam recordação de lendas acerca de tais
eventos. Como se quisesse provar que era genuinamente dissimilar à boa gente da
terra, o estranho mostrava a sua estranheza em tudo: sobre o corpo trazia um
manto puído e sujo, rasgado em vários sítios e a desfiar-se em quase todas as
orlas; trazia nos pés o calçado dos animais da floresta, apenas pele muito
calejada e seca capaz de ignorar as ofensas das pedras que habitam o chão; o
andar era tosco, como se coxeasse ora duma perna, ora da outra, ora então da
bacia inteira, podendo-se jurar que dançava como um tolo em vez de ambular;
pendurada num ombro, uma trouxa ia esvoaçando sobre ele tão vazia que estava; e
mais que tudo, trauteava uma espécie de canção que teria aprendido com pássaros
longínquos, dos que falam cantos desconhecidos das aves que moravam naquelas
paisagens. O que mais sobressaía naquela figura, era que apesar do que faria
sentido perante o conjunto, não transportava cajado de nenhuma ordem.
Sempre nestas situações o contacto com o desconhecido é iniciado por alguém que, pertencendo às gentes boas, tem reconhecidas faltas num ou outro domínio: o louco ou o bêbedo, que sendo primos e tios não se devem escorraçar; um rapazote demasiado precoce cuja curiosidade ainda não foi temperada pela experiência e conhecimento dos preceitos; um soldado que, tendo pouca autoridade, tem tristemente ainda menos bom senso; uma mulher; um cão. Assim foi desta vez. Quando o viajante chegou ao centro da aldeia, sentindo no espírito o que sentiram os antepassados daquela gente, soube que ali era lugar próprio para o descanso da grande travessia. Procurou uma pedra boa e lisa, e nela encostou as barrigas do rabo, provocando muito escândalo entre os populares para quem a pedra era objeto de propriedade dos aldeãos, sendo por isso desfaçatez e má educação tocar nela com os peidos. Mas tal feito, ofendendo os quase todos, tocou na sensibilidade do tolo mais infantil de ali, quer dizer, do soldado. Este aproximou do estrangeiro e, firmando o peito no ar e a lança no nariz, procurou razões deste ali estar. Em voz rouca e em palavras cortadas pela música de línguas longínquas o turista respondeu. Era peregrino em demandas que escapavam a sua escolha, vinha por mando de grandes senhores e ainda maiores oráculos que o haviam cuspido do prazer da família e do solo conhecido para paragens aonde haveria de se mostrar. O soldado prontamente avisou que era ordenado a levantar as bofas daquele chão onde perturbava a paz e a santidade do povo, mas em resposta ficou sabendo que de autoridade tinha tão pouca que até as vozes distantes que haviam comandado o viajante e se guardavam longe do horizonte eram mais dignas e sonantes que a dele. Ao soldado sucedeu o chefe, que por desvios de bondade era o mais possante cultivador e era detentor das maiores amizades na aldeia, as quais lhe outorgavam mais força que aos corpulentos, mais inteligência que aos sábios e mais coragem que aos valentes. Chegando a três passos atrás do soldado, apontou o nariz ao zénite e admirou a si mesmo, dizendo ao estranho que ali era sua a palavra mais forte e que ela o demandava dali embora. O estranho, como não entendendo, abriu a trouxa e dela retirou duas folhas de uma planta, que mastigou com suavidade. Demorou um tempo, no qual viu a notável presença do chefe, que não movera um fio de cabelo enquanto aguardava resposta, concluindo assim que ali era um homem com a autoridade de uma estátua. Disse-lhe então que era bela a senhoria com que o homem se mostrava, mas ainda assim fraca e pálida ao lado daquela que o escorraçara do seu lar forçando a privação que colora os missionários. Tornava então a mastigar. Nisto um burburinho cresceu entre os populares, que pareciam desenhar planos sorrateiros. Irritado, o chefe juntou-se a eles. Apalermado, o soldado juntou-se a eles. Ainda não tinham tomado uma decisão, quando do ventre da terra os pés do viajante foram incitados a continuar viagem. Quando a aldeia se apercebeu, já a pedra tinha esfriado.