65.ª Nota ao discurso de Vasco Gonçalves em Almada

A 18 de agosto de 1975, o primeiro-ministro Vasco Gonçalves proferiu um discurso em Almada. Quase cinquenta volvidos deste período, a leitura atenta, cuidada e imparcial desse discurso, informada por tantas décadas de democracia, oferece umas notas de leitura, que doravante de apresentam.

Por isso e aproveitando a presença na nossa pátria de milhares de compatriotas que vieram passar um mês de merecidas férias [65], quero afirmar solenemente, e mais uma vez, mais sei lá do que tantas vezes, quero afirmar solenemente que os seus bens, o produto do seu trabalho, são sagrados! Exortá-los também a repudiar tanto em portugal como nos países onde ganham a vida, os que tentam semear a divisão entre os emigrantes, os que tentam separar os emigrantes da sua mãe-pátria. Compatriotas que ganhais a vida lá fora. Não deis ouvidos aos boatos. Participai ativamente na obra de reconstrução da vossa pátria para que os vossos filhos e netos não sejam obrigados a passar o que tendes passado, a sofrer o que tendes sofrido!



[65]

Foi no segundo dia que descobriu que tinha essa ideia dentro de si. Mas da primeira vez, deu um passo atrás, deu dois, fechou os olhos com toda a força, virou a cabeça para trás e desviou os lábios da frente da cara, e ao fim de três segundos julgou que o perigo estava ido e tornou na sua lida. Era o segundo dia das férias, o primeiro naquele quarto quente abafado.

Só no sexto dia voltaria e topar com a ideia. Estava ali, como que esperando no lugar onde esticava as mãos e as modelava, agora para aqui e agora por ali, naquelas nuvens de vapor indesejado perante o bafo que não parecia fugir. Nessa segunda vez demorou a reagir-lhe. Talvez porque pressentisse familiaridade, como se estivesse descobrindo que essa ideia fazia parte de si; talvez porque se lembrava de a ter visto ainda outro dia; talvez porque não percebesse o que ali estava durante quaisquer segundos. Ela abanou um dos pulsos com algum vigor. Ia apontado no lugar da ideia, porque parecia que dali vinham fumos demasiados. Quando o ar pesado dissipou e viu que era de novo a ideia, voltou a resguardar-se, as mãos em cruzinha como tinha aprendido a afugentar o demo, e lá conseguiu que a ideia dispersasse de novo. Estava ainda no sexto dia das férias, apenas o quinto naquele quarto extenuante.

Mais de uma semana decorreu em paz. A paz era coisa boa, um transe corrente sem sobressaltos, sem terrores, a vida na complacência dormente. Depois chegou o décimo quinto dia. Era o décimo quarto dentro daquele espaço. Estava de novo na engoma, a pausar os tempos da cozinha e os da faxina, deixar o nariz repousar dos cheiros que vestem essas operações, saunando-o com mera água a ebulir e essências de flores que a lavagem diluía do detergente. Reaparecida, a ideia abusou desse momento de fraqueza e plantou-se firme no interno das pálpebras como uma imagem irrecusável. Era ela, de pés carregados de areia, uma areia salina em volumes que nunca tinha visto dentro do quarto, volumes que cobriam o chão todo e seguiam sem fim até adormecer debaixo das vagas espumantes do oceano. Era ela. Era ele, claro, ele e os pequenos, mas também ela ali era. Sabia bem ser ali. Sabia mesmo bem. Dessa vez, custou-lhe empurrar a ideia para longe; nem a força dos argumentos parecia funcionar. Acautelava-se: Mas quem estará a fazer o almoço?, a limpar a casa?, a engomar a roupa? Nada parecia valer. Mas sabia que não estava só, que perante a atração do descaminho se pode apelar ao braço amigo, e ele chegaria em breve para lavar o sal do corpo e encher o estômago com grelha. Quando ele chegou, partiu a ideia em duas e deu-lhe metade. Que sorte!, ele não cedeu, assegurou-lhe que ali era o seu lugar, que essas eram as férias que ela havia conquistado. 

Nisto continuou mais uma quinzena. A ideia, felizmente, nunca venceu. 


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