64.ª Nota ao discurso de Vasco Gonçalves em Almada
A 18 de agosto de 1975, o primeiro-ministro Vasco Gonçalves proferiu um discurso em Almada. Quase cinquenta volvidos deste período, a leitura atenta, cuidada e imparcial desse discurso, informada por tantas décadas de democracia, oferece umas notas de leitura, que doravante de apresentam.
Não se trata portanto de um socialismo tal como o apregoam aqueles para quem o vinte e cinco de abril deveria tão somente ser um render da guarda, uma substituição dos gerentes fascistas dos monopólios e latifúndios, por uma nova geração de gerentes democráticos, e se necessário com umas tintas socializantes, dos mesmos monopólios e latifúndios. Só o socialismo, criando novos postos de trabalho, aumentando a riqueza nacional, libertando cada um de nós da exploração alheia [64], fará com que nunca mais um português abandone mulher e filhos para ir vender a sua força de trabalho longe da terra natal.
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Nos princípios de tudo, uma criatura pensante teve uma ideia. Já não se saberá o seu nome, o que é triste em geral, e uma perda importante para as sociedades que cobram direitos de autor em particular; um rombo na felicidade dos povos em princípio, pelo que é ideal inventar-lhe já um nome. Evitar, obviamente, um nome com perigosas conotações. Não deve ser nem muito feminino nem muito masculino, nem demasiado clássico nem demasiado moderno, nem extremamente autóctone nem extremamente estrangeiro. Não se pretende alienar ninguém. Ah, já vi! Nos princípios de tudo havia uma criatura que pensou pensamentos e o nome que lhe damos, para os efeitos deste presente texto e com o cuidado de nunca presumir ser este o seu nome verídico não vá dar-se o caso de um descendente ou representante legal estar com atenção em coisas destas, é Zé. Era assim: o Zé teve uma ideia. Perdão, várias. O Zé teve várias ideias e nunca nos passou pela cabeça induzir alguém a pensar o contrário, por quem nos tomais?! O Zé teve várias ideias, imensas-imensas, mas o caso é que neste momento nos interessa apenas uma. Aliás, com licença, não foi nada disso que propusemos. Estamos sempre, exceto quando dormimos, invariavelmente interessados em tudo o que o Zé disse. Acontece que neste instante, e para facilidade de comunicação, vamos focar com especial atenção numa delas, sem qualquer desprimor às demais, que são belas e relevantes por igual, e possivelmente mais profundas do que qualquer um de nós alguma vez mereceu, salve Zé, salve-salve! O Zé, dizíamos, teve uma ideia em concreto que nos merece particular atenção, e que foi esta: Bom, bom-bom, é quando nos exploramos a nós mesmos. E é isto, a grande e fantástica ideia, porque ao contrário das ovelhas que conseguem passear, pastar e defecar ao mesmo tempo, os homens e as mulheres tendem a só conseguir fazer uma coisa de cada vez, portanto explorando-se obrigam a quem os queira explorar a toda uma série de acrobacias difíceis e extenuantes. E há que reconhecer que esta incapacidade dos homens e das mulheres é apenas e em exclusivo alegada, não havendo provas de que seja mesmo assim e sobretudo quando se trata dos homens e das mulheres mais proactivos, que é como quem diz os que são mais ágeis a instaurar processos por calúnia ou difamação, pelo que se aconselha a tomar essa afirmação como meramente especulativa e pouco mais que um exercício de pensamento criativo. Ora como dizíamos, esta tinha sido a ideia do Zé que logo se aproveitou por quase todos os amantes da emancipação. Mal o Zé teve esta ideia e a assobiou, era ver a malta a organizar-se a inventar ideias muito boas às quais se obrigavam. A umas obrigavam-se obrigando-se do estilo ‘é urgente pagar algum tipo de tributo a alguém supremo’, supremo como uma criatura intangível, ou pelo menos superior como uma criatura aristocrática. A outras obrigavam-se impedindo-se ao estilo ‘é muito imprescindível evitar comer certas carnes’, nem que seja durante alguns serões por ano. Foi, aliás, uma ideia tão boa que até vários meses depois de ser dita, ainda havia artistas a laborar novas maneiras de brincar com ela, de que é exemplo a extraordinária invenção de se poder vender o próprio tempo de vida, ao menos um terço de cada dia à vez, para que durante esse tempo possa usá-lo como entender o dono do bolso que o comprou.