63.ª Nota ao discurso de Vasco Gonçalves em Almada

A 18 de agosto de 1975, o primeiro-ministro Vasco Gonçalves proferiu um discurso em Almada. Quase cinquenta volvidos deste período, a leitura atenta, cuidada e imparcial desse discurso, informada por tantas décadas de democracia, oferece umas notas de leitura, que doravante de apresentam.

A este processo chamamos nós “processo revolucionário de transição para o socialismo”, porque na realidade se trata de revolucionar um modo de vida baseado na exploração de todos os produtores. Porque se trata de pôr fim ao despotismo de meia dúzia de ricaços, para que os milhões de trabalhadores sejam enfim prósperos, livres e felizes. Porque se trata de criar condições de vida para que mais nenhum português se veja obrigado a expatriar-se a fim de ganhar o sustento dos seus. Processo pois revolucionário de transição para o socialismo, porque só o socialismo, o autêntico, dará a cada um de nós o pão [63] e as rosas, o sustento e o saber.



[63]

Era já o sétimo templo e de novo a mesma promessa, que um ser benigno algures distante da imaginação faria ofertas de esvaziar o estômago de fome para aqueles que fossem bem comportadinhos. A dificuldade estava em que crescia. A dificuldade crescia. Se no primeiro templo foi fácil, ainda que arbitrário, compreender as condições em que se produz um bem-comportado, no segundo templo já começaram a competir exigências. Do terceiro em diante já só engordava a dificuldade. Não em si. Porque cada templo é feito para quem não passeia por vários, em cada um há simplicidade. Mas quem fizer o périplo, juntando os passos em todas as suas lajes, obrigado a pendurar algumas coisas ao entrar aqui e ali, retirando o que se pode sorver com mais substância, em cada um sobram panos que não casam facilmente. É que o obrigatório de um lado pode ser deveras ilícito no outro. E nem por isso ou nem sempre embora talvez e até mesmo com certeza que o inverso também. Pelo que a dificuldade ia crescendo. Compreenda-se: o que ela procurava era a verdade, aliás a Verdade, e isto significa saber ouvir e também ver, tocar quanto saborear, ainda que destas ela não atingisse; ficava presa pelo que conseguia fazer com as orelhas. Uma coisa era certa: em qualquer dos sete era oficial a promessa de distribuir pão. A promessa. Não se vira até então o facto. Mas isto se justifica da forma mais simples, pois que está o prémio cativo enquanto os templos errados estiverem tão fartos. E se há coisa que assusta, pois bem que é esta. Veja-se: cativam-nos o pão até se resolver a confusão de aquase todas as cabeças. E nisto logo se desiste, toda a gente mesmo. Toda a gente mesmo, menos ela. Ela vai com o plano: descobrir a Verdade, avisar toda a gente. Abandonando as crenças sem mérito, o pão choverá. Não literalmente, espera-se. Criadas as condições para chover pão, talvez mereça a pena manter os aviões na gare por uns tempos. Mas na metáfora, choverá. Isto é, a fome sofrerá uma maneira de exílio. Só que, para isto, primeiro a Verdade. E já ela vai no sétimo templo, e tudo quanto cresce é a dificuldade. Dir-se-ia que quanto mais procura, mais longe dela está. 


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