61.ª Nota ao discurso de Vasco Gonçalves em Almada

A 18 de agosto de 1975, o primeiro-ministro Vasco Gonçalves proferiu um discurso em Almada. Quase cinquenta volvidos deste período, a leitura atenta, cuidada e imparcial desse discurso, informada por tantas décadas de democracia, oferece umas notas de leitura, que doravante de apresentam.

O mesmo não podia passar-se ao nível da administração central, onde só algumas individualidades mais comprometidas com o regime anterior foram afastadas. Poderá dizer-se que nos lugares de dirigentes deixados vagos pelo saneamento [61] e nos lugares novos que foram criados, foram colocadas só individualidades daqueles partidos atrás referidos?



[61]

Eram perto das onze horas da noite, talvez a pior altura, sim, com certeza a pior altura, a hora das indelicadezas, das pessoas sem decência nem respeito, a hora do desrespeito. A essas horas, já as crianças estariam deitadas, os progenitores a descansar algumas partes do corpo sobre uma superfície mole ou almofadada, desejando que o compasso entre o sono dos filhos e o alarme das obrigações pudesse ampliar, ao menos dobrar, que aquele instante duplicasse em horas para os músculos poderem acreditar que afinal o descanso é uma coisa real. A pior altura, portanto. A pior altura para um telefone tocar. Quem se atreveria a fazer um telefone tocar nesse singular momento de placidez, roubando um último pedaço de bondade que restava no mundo? De facto, a pior altura. Mas não havia nada a fazer senão telefonar. Tudo o mais fora esgotado, e fora-o tão depressa. E se tivesse ligado logo? Sim, se tivesse ligado logo em vez de exercitar os recursos disponíveis aos leigos? Oh, se tivesse ligado logo. Mas já seriam dez e um quarto. No fundo, o desenrasque é uma arte que se esgota depressa; os espertos não possuem a mestria para tentar, preserverando ao fim de uma luta duradoura. Mesmo que tivesse ligado logo, já seria uma desfaçatez, uma total ausência de graça. Então, pegando no telefone, Madrineida lascou os números e compôs na voz o timbre mais apologético que encontrou. O canalizador deve ter entendido a aflição. Disse que iria só saltar da cama e lá estaria em menos de meia hora. O que, de facto, aconteceu. Levou apenas setenta e oito minutos. E, chegando, sorriu. «Claro, claro, não se preocupe, estas coisas são mesmo assim, nada a fazer. Pois, é evidente que fez bem em chamar, mesmo naquela hora terrível, arriscando-se até a sujar a imagem própria, não há qualquer problema, não é coisa que se faça com um desentupidor, não é coisa que se resolva com água quente e bicarbonato, não, não, coisas destas nem com coca-cola vão lá (e nisto abre um malão). Equipamento, estas coisas só mesmo com equipamento (e avisa que será importante pedir as desculpas devidas aos vizinhos). Claro, porque fará um ruído tremendo, exato, estão, acordarão todas as crianças, até às pulgas saltarão dos cães e dos gatos, é que a esta hora, sabe, a esta hora qualquer barulhinho parece cantar ao megafone, é uma hora em que todo o som é ativista, invade assim a indiferença das pessoas independentes.» Abriu a caixa do esgoto, ligou a máquina e rilhou tudo o que prendia o movimento daqueles canos. Foi obra de quinze minutos. Talvez menos. Foi obra de catorze minutos e picos. Depois uma fatura, um pagamento, mais «Desculpe, desculpe, que maçada», e «Não há qualquer problema, fez muito bem que quanto mais tempo anda pior fica.» E saiu. Logo após, Madrineida abriu uma torneira, rápida e muita, e fechou quase no imediato. Encostou o ouvido ao ralo e ouviu. Escorrer. E eco. Um eco, dois, mais. Algo se ouvia, mas se tinha um sentido, perdera-se por completo. Depois de limpo, nada no cano parecia concreto. 


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