60.ª Nota ao discurso de Vasco Gonçalves em Almada

A 18 de agosto de 1975, o primeiro-ministro Vasco Gonçalves proferiu um discurso em Almada. Quase cinquenta volvidos deste período, a leitura atenta, cuidada e imparcial desse discurso, informada por tantas décadas de democracia, oferece umas notas de leitura, que doravante de apresentam.

Agora vou falar também de um outro assunto candente e depois de eu falar nisto eles dirão “Ali está o pró-comunista, ali está o homem ao serviço do partido comunista”. Mas quando a gente tem a consciência tranquila, e tem bem assentado no nosso interior o amor da nossa pátria, a gente não ouve essas coisas. Nem se impressiona com isso. Na campanha de intoxicação da opinião pública a que assistimos, fala-se muito de que os lugares-chave da administração central e local estão ocupados por individualidades do pêcê, do emedêpê e de outros partidos políticos de esquerda em detrimento do pêésse, do pêpêdê ou do cêdêésse. Ora o que se passa na realidade desmente de maneira absoluta as atoardas de tal campanha. É conhecido como logo a seguir ao vinte e cinco de abril, muitas autarquias locais passaram a ser geridas por pessoas daqueles partidos de esquerda incluindo elementos do pêésse que se encontravam ainda ligados aos outros partidos antifascistas no seio do movimento democrático português. Isto passou-se devido ao facto de nestes partidos se encontrarem os indivíduos militantes mais aptos, mais ativos, para ocuparem naquele momento [60] aqueles lugares e ser necessário substituir rapidamente as direções fascistas. Esses eram os maiores lutadores, os homens todos que estavam reunidos nesse tempo no movimento democrático português.



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Acima das sobrancelhas de Dolionores as testas latejavam-lhe, todas. Pareciam perdidas num baile onde o ritmo é mais forte que a melodia e a harmonia já se dissipara há exatamente sete copos de líquido verde e amarelo atrás. Gostaria que fosse apenas e não mais que uma cacofonia. Isto era o que ela preferia ter pensado, se estivesse em condições de o fazer. Teria pensado que haveria um prazer se tudo ali não passasse de cacos. Ah, que silêncio se ouviria, a voz carregada do segredo. Mas, por dores e tragédias, não estava capaz sequer desse pensamento simpático e vingativo. É que o palpitar absoluto tomava conta de quaisquer considerações, já só podia desejar chorar. Os olhos, como as testas, traíam-na: estavam secos como os vales onde já não corre um fio d'água e nem sequer dois. Dobrada sobre tudo de que era feita, Dolionores fazia tentativas de se isolar do mundo, mas o mundo não se calava em volta dela. Ali, naquela bola humana, ela já não tremia, era uma estátua de dor. E era a única coisa na sala que vivia sem movimento. O resto estava vivo, numa amplidão de euforia, cantando e batucando sem cerimónia. Aliás, com cerimónia. Cada um deles praticava um ritual, todos ao mesmo deus, mas – azar dos tremendos azares – cada qual sob uma diferente confissão. Não se degolavam, mas quase: ignoravam-se: praticavam a violência dos povos abundantes. Intencionalmente desconhecendo os movimentos dos outros, oravam a um mesmo deus virando-se a ele por ângulos diferentes. Sem misericórdia. Nenhuma. Badalando a sua fé com a ardência dos que vivem em cultos, jogavam tudo o que tinham: ponteiros, pêndulos, dígitos: jogavam tudo o que tinham para o cume desse venerável ilusório a que chamam Tempo. Oitocentos e trinta e nove relógios ocupando cada instante com um compasso. No meio, uma mulher infeliz. 


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