59.ª Nota ao discurso de Vasco Gonçalves em Almada
A 18 de agosto de 1975, o primeiro-ministro Vasco Gonçalves proferiu um discurso em Almada. Quase cinquenta volvidos deste período, a leitura atenta, cuidada e imparcial desse discurso, informada por tantas décadas de democracia, oferece umas notas de leitura, que doravante de apresentam.
Há muita gente interessada em dizer que nós somos inimigos da iniciativa privada. Nós somos é uns firmes lutadores e combatentes contra o capital monopolista, contra o capital latifundiário, contra as pressões, contra o poder que os grupos económicos exercem na vida política dos povos. E somos defensores acalorados da libertação do homem. Só na medida em que dispusermos de um estado democrático e forte poderemos impor o ritmo mais adequado à revolução. Mais uma vez, portanto, se põe a questão do exercício [59] de uma autoridade democrática que faça cumprir as leis democráticas e que dê condições ao governo que permitam clarificar a situação económica, as relações laborais, etc..
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Há, para cada movimento dos que se repetem exaustivamente na educação das partes físicas do corpo, uma ou outra sugestões que se prestam à repetição em tom indignado e indagador, pois a cada um destes gestos fortalecedores os mestres tendem a adicionar minúsculas variações como se o espírito de João Baque visse no corpo de um pupilo nada mais que um instrumento capaz de se harmonizar com toda uma orquestra ao mando de uma batuta cândida, e decidisse que uma melodia perfeita pode ultrapassar o aborrecido que por vezes assoma ao espírito desde que nela hajam ligeiras modificações que em nada contribuem para que um tema mude para outro. Nestes ensaios, por vezes se ouve: Como assim “com os cotovelos”? e se esta pergunta não ressoa na vara comprida com que o diretor estimula um treino, pode mesmo suceder que penetre a concentração dos executantes nos naipes mais próximos, e após estes toda uma meia banda, provocando desordens inaceitáveis e tendentes a resvalar no perigoso soalho dos libertinos. Sim, por vezes se ouve: Como assim “agora de pés para cima”? e só fazendo uma garganta sofrer o sentimento do arrependido é que um treinador reconquista a placidez que oferece calma e tranquilidade aos espíritos, incluindo o seu, incluindo os seus, incluindo os espíritos achocalhados e inquietos da boca que urrou o que se ouviu, como se o difícil fosse irmão do impossível. De facto, por vezes se ouve: Como assim “sem levantar os calcanhares”? e o maestro mais profundo logo se compadece porque sabe que o seu instrumento sofre de um mal invisível, foi contaminado com a dúvida máxima, crê na sua própria limitação, e serve então a batuta, isto é, a cana, aplica-a num pedaço de carne que ainda seja capaz de sofrer, para se lembrar que, ao menos no ginásio, tudo permanece possível.