58.ª Nota ao discurso de Vasco Gonçalves em Almada

A 18 de agosto de 1975, o primeiro-ministro Vasco Gonçalves proferiu um discurso em Almada. Quase cinquenta volvidos deste período, a leitura atenta, cuidada e imparcial desse discurso, informada por tantas décadas de democracia, oferece umas notas de leitura, que doravante de apresentam.

Por isso mesmo se fala de uma via de transição para o socialismo durante a qual coexistirão o sector público e o sector privado sendo este progressivamente absorvido pelo sector público de acordo com condições que muito brevemente serão estabelecidas, na sua generalidade, e que garantirão os legítimos interesses dos capitais privados que patrioticamente se colocarem ao serviço da revolução. Compreende-se a perturbação existente entre os pequenos e médios comerciantes, agricultores e industriais, em face das opiniões divergentes sobre o futuro da iniciativa privada, formuladas por várias correntes de opinião a que os meios de comunicação social oferecem por vezes relevo desproporcionado com a importância dessas correntes. Os governos anteriores e o quinto governo provisório nunca deixaram, porém, de afirmar a importância de manter e de fomentar a iniciativa privada cujo campo de atuação e estruturas estatais de orientação e coordenação serão claramente estabelecidos pelo governo. Isso não é incompatível. É o que caracteriza... a gente fala em via de transição para o socialismo, durante essa transição terão de coexistir a empresa estatal, a empresa pública e a iniciativa privada. As relações de produção, terão de ir dando forma cada vez mais a essa aproximação do socialismo. Mas isto não quer dizer que a iniciativa privada não caiba também no nosso esquema. Aliás, ela é necessária para o desenvolvimento do nosso esquema [58].



[58]

Não houve até estes dias um único esquema capaz de se desenrolar sem ela. Como um ovo. Sim, como um ovo, a Imaginação. Levado até ao rebordo de uma placa de mármore limpa, tocando no seu vértice com duas ou três pancadinhas secas, brotam ideias da Imaginação como se de um ovo. Brotam ideias e quase sempre um ou outro pedaço de casca que se esconde dos dentes do garfo, agarrando a albumina como se ela fora uma saia materna. Da Imaginação esvaem-se delírios disfarçados de ideia com pedacinhos de casca que não parece fazerem mal ao engolir. Podem-se misturar ou promover tal qual estão, com estas partes tão carregadas de gordura e aqueloutras quase vazias de nutrição; podem-se combinar com outras substâncias e até consigo mesmas, e permitir que, do valor do trabalho nelas impresso, ecloda um modelo qualquer.

Separadas da génese e, depois de tremidas com um garfo ou com uma batedeira, forçadas à linha de uma Régua… Não se conhecem estratagemas que vinguem sem sofrer a firmeza da Régua. Sim, as gemas, estratégicas aqui como na esperança que nelas depositou um ovo. Após perderem toda a distância que as separou da claridade, eis que podem de novo conhecer limites, encontrar um fim aqui outro acolá, sentir que há de novo ordem no mundo pois há um fio que separa o eu dos outros. Medindo-se em números, a matéria processada descobre ângulos impossíveis de ultrapassar e pode dizer agora que já encaixou numa forma. Já enformou. Formou-se. Se nela sobrarem pedacinhos de casca também eles serão encaminhados: a Régua encontra para cada entidade o lugar que lhe convém, o trilho onde desabrocha a sua plenitude.

Se a uma proposta se deseja dar finalidade, há que dela eliminar os traços do artificio. Isto não se pode realizar sem o benefício de uma Borracha. Passada ao de leve sobre o pêlo do ovo esquadriado, tal como um salazar carinhoso, a Borracha permite que lhe resista tudo quanto deve subsistir. Como um aspirador voraz ela previne que lhe resista tudo quanto deve desvanecer. Inflexível, sacode para um passado morto a prole magnífica da Imaginação, o suor meritório da Régua, e instala-se, plena, como se as formas do mundo nunca pudessem Ser sem o abandono da Memória. 


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