57.ª Nota ao discurso de Vasco Gonçalves em Almada
A 18 de agosto de 1975, o primeiro-ministro Vasco Gonçalves proferiu um discurso em Almada. Quase cinquenta volvidos deste período, a leitura atenta, cuidada e imparcial desse discurso, informada por tantas décadas de democracia, oferece umas notas de leitura, que doravante de apresentam.
Como já por várias vezes afirmei, isto não significa a eliminação da iniciativa privada, cujo concurso também é necessário [57] para a consolidação da economia.
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Uma certa vez que o séquito passava pelas calhes da cidade, um dos discípulos mirou e sentiu que brotava dentro do seu peito uma pergunta. De imediato quis erguer-se e correr até encontrar o mestre, na esperança de que este soubesse entrar na sua boca e ver-lhe o coração, pois estava tão assolado pela sensação que nem pensara em transformá-la em pedaços de som para que pelos ouvidos os outros pudessem apreciar o mesmo. A sorte do discípulo é que as coisas foram feitas de modo a que, quando o séquito dos imperadores ou dos monges passam, todas as cabeças se curvem e os olhos se firmem no chão, com medo de despertar a fúria dos deuses que protegem os sangues de certas linhagens. Isto lhe deu a oportunidade de matutar. E, enquanto matutava, compreendeu que também isto lhe povoava o amargo do coração. Ficou assim acocorado algum tempo, que seria o mesmo tempo que todas as outras vezes em que um séquito passara por ele, mas desta vez parecia-lhe durar muito mais. Na verdade, sensacionava que desta vez esse intervalo sobre a vida nunca iria terminar, que dentro dele estava guardada uma eternidade inteira, e que ele tivera o desastrado azar de entrar num dos filamentos do tempo que permitem apalpar todo o infinito. Ao discípulo isto exaltou as comichões e os nervos, fazendo-o rapidamente desejar o fim abrupto de tudo aquilo, mas nada fez nesse sentido, porque é muito difícil estreitar o tempo mantendo-se na condição humana, e ainda mais difícil quebrar o decoro social mantendo-se na condição encabeçada. Ao fim de imenso tempo nesta dificuldade, o discípulo começou a abandonar-se. Abandonou primeiro a irritação com a enormidade do tempo, e assim que o fez sentiu-se aliviado, dizendo a si mesmo “Felizmente o tempo é tão grande e vasto que os dragões se podem tornar memórias e, quando já só são memórias, os homens que se lembram deles parecem avós brincalhões em vez de assassinos em preparação”. Logo então, abandonou a irritação que lhe provocava a obrigação de toda uma sociedade curvar perante a passagem de uns dilectos, e estando disso livre pensou estas palavras “Felizmente os bons jogadores sabem perder com dignidade, elevando os que os venceram sobre os seus ombros ao invés de planear a sua queda”. Finalmente o séquito virava a rua e os populares que estavam naquela avenida podiam erguer as cabeças e tornar às suas vidas. O discípulo levantou-se e, tal como tinha determinado, foi ter com o mestre. Mas não corria. Tão calmo e tardio chegou, que os outros discípulos acharam que vinha apenas em contemplação. Só quando o viram aproximar do mestre para lhe dizer algo, ficaram preocupados. Então avisaram o discípulo que perante uma qualquer voz que se deseja partilhar com o mestre, deve-se correr para o colo deste sem tardar. Ao ouvir isto precisamente em frente ao mestre, o discípulo apenas respondeu “Felizmente em todos os seus jogos as crianças definem três coisas: a ação, o prémio e o castigo. Brinquemos com a seriedade das crianças, sim, mas também com a sua leveza”. Disse isto, e no lugar do mestre só sobrava uma sombra: tinha-se transformado num cão-guaxinim e fugia pelas sombras inventando uma nova travessura.