56.ª Nota ao discurso de Vasco Gonçalves em Almada

A 18 de agosto de 1975, o primeiro-ministro Vasco Gonçalves proferiu um discurso em Almada. Quase cinquenta volvidos deste período, a leitura atenta, cuidada e imparcial desse discurso, informada por tantas décadas de democracia, oferece umas notas de leitura, que doravante de apresentam.

Como já por várias vezes afirmei, isto não significa a eliminação [56] da iniciativa privada, cujo concurso também é necessário para a consolidação da economia.



[56]

Repuldério Salinante contava as palavras segundo a regra dos ouros: procurava a perfeição. Quando alguém lhe perguntava em que consistia a arte do censor ele dizia “Igual à vocação do escultor, é saber ouvir a verdade retida dentro de um texto, e libertá-la daquilo que lhe for em excesso para que o seu verdadeiro fundamento possa enfim respirar”. E contava isto sem nunca largar o lápis da cor do céu imaculado que tanta piedade lhe inspirava, sem nunca remover das vistas o contraste esplêndido entre o alvo do papel e o negro retinto do verbo. Nunca aceitou que a sua fosse uma arte diabólica. Era, ao invés, um ritual divinatório, primo dos rituais solenes dos oráculos, um gesto que apelava à única fonte do saber que os seres de fé reconhecem: a revelação. Se dissessem “Cortas” ele replicaria “Revelo” e quase em transe deixaria que qualquer um testemunhasse a força viva e invisível que mobilizava a sua mão, o direito do destino a mostrar-se pela condução de um pulso. Embora: quase ninguém se convencesse. Os rasurados faziam caretas como se lhes amputassem um órgão moral sem a benesse da anestesia. Os compadres, esses menos amores lhe ofereciam, julgando que por poéticas Repuldério tentasse ofuscar um crime sancionado que se esperaria dar o gozo que dá a todo homem de convicção. Nem um cria no facto amoroso que insuflava a sua técnica. Nunca Salinante se deixou abater por tais incompreensões. Perante a acusação, amiga ou inimiga, de que decorava o papel com o tom da safira para salvar os desígnios que escorriam dos palácios, ele afirmava “Os desígnios que sopram nos edifícios devem animar a caligrafia dos arquitectos, mas o meu pulso apenas obedece ao murmúrio das sílabas” e deixava-se quieto, apenas riscando, riscando sempre e muito. Só mais tarde, quando a sua oficina passara a viver nas páginas da história, foi voluntário a explicar a sua arte. Era em frente a tribunos os quais pediam, como é seu hábito, explicações existentes além do que podiam compreender. Demandaram qual era o critério? Ele explicou: “Contar as palavras, todas e cada uma, e aliviar o texto de um peso imenso para que o seu espírito pudesse voar”, e acrescentou, após o simssim impaciente do juiz, “Primeiro a primeira, saltar a que fica, então a terceira, saltar de novo, quinta e sexta, saltam-se duas, as três seguintes, poupando outras tantas, e por aí fora, conforme salientou Fibonacci”. E com isto se poupou a dois anos de cárcere, tendo-lhe custado a vintena no hospício. 


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