55.ª Nota ao discurso de Vasco Gonçalves em Almada

A 18 de agosto de 1975, o primeiro-ministro Vasco Gonçalves proferiu um discurso em Almada. Quase cinquenta volvidos deste período, a leitura atenta, cuidada e imparcial desse discurso, informada por tantas décadas de democracia, oferece umas notas de leitura, que doravante de apresentam.

Não foi arbitrário. O desenvolvimento da intervenção do estado na economia surge como uma necessidade histórica para a solução dos problemas económicos nacionais. A eliminação dos monopólios e latifúndios, as sucessivas nacionalizações e o início da reforma agrária, que abrem o caminho à fase de transição [55] para o socialismo, aparecem como um imperativo nacional, como o único meio para estabilizar e permitir o desenvolvimento da economia e libertar os trabalhadores das relações de produção a que estavam submetidos.



[55]

Nesse momento, quando os filósofos abandonam definitivamente o verbo para alicerçar qualquer das suas rasteiras na sensibilidade dos algarismos, quando os candidatos deixam de orar promessas porque nenhuma consegue ser vaga o suficiente para a arte que amestraram, quando se dobra o ângulo que transforma a superfície na falésia, nesses noventa que são graus, um poeta escreverá assim:

Quatro vinte-e-oito oito
Vírgula vírgula vírgula
Tenho um prato de fome

No vértice em que um plano toca o outro, nesse lugar em que os cantores largam a voz para gritar pelas teclas do piano, nesse lugar em que os povos abandonam os sons que são fracos condutos de ideias replaçando-os pela mais completa gama que oferece um teclado de ordenador, nesse lugar onde a geometria faz com que o teto se dissolva em parede, nessa trigonometria o poeta escreve ainda:

Saber saber saber a mar
Olfatos nos olhos
Parêntesis nove escape

Na esquina em que tudo muda, no lugar que já não é pois Foi mas aonde ainda é Será, as vozes da frente são surdas, projetadas no futuro pelo medo que o passado lhes convoca, as vozes de trás são surdinas, incapazes de aceitar dignamente uma extinção. Destratam o poeta do vértice, esse que no transitante apenas É, cuspindo-lhe que ainda os números são matérias diferentes dos verbos, que ainda a pontuação é marca sem substância própria. E, na única língua que se conhece no meio, este responde escrevendo:

E se fosses para o caralho
Sete vezes
Ponto de interrogação


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