54.ª Nota ao discurso de Vasco Gonçalves em Almada
A 18 de agosto de 1975, o primeiro-ministro Vasco Gonçalves proferiu um discurso em Almada. Quase cinquenta volvidos deste período, a leitura atenta, cuidada e imparcial desse discurso, informada por tantas décadas de democracia, oferece umas notas de leitura, que doravante de apresentam.
Não se pode caminhar na via de transição para o socialismo sem um plano que, basicamente, caracterize a mudança das relações de produção, ao mesmo tempo que o desenvolvimento económico e social. De resto, quando foi aberta a crise do quarto governo, esse plano estava justamente a ser estudado, tendo o seu calendário de elaboração sido aprovado por esse mesmo quarto governo. As alterações estruturais da nossa economia, ou seja, alterações nas relações de produção e a progressão da intervenção do estado na atividade económica tiveram como causas, por um lado, a necessidade de estabilizar a economia, de evitar a sua estagnação e recuo em face da quebra da iniciativa privada e da deliberada sabotagem por parte do capital monopolista e latifundiário e, por outro lado, o movimento das massas trabalhadoras no sentido de se libertarem da exploração capitalista. Isto é importante: assim, o tão falado ritmo do avanço [54] do processo revolucionário no sector económico é marcado pela própria reação contra o processo e pela tomada de consciência política dos trabalhadores.
[54]
Estimado Ceifador dos Exércitos, sabe que ouvi dizer, pelas ruas repletas
de mercados cuja paz e borburinho são mantidas baixo o teu pulso suave e
honorável, que há algo que caminha sobre os montes e as planícies, fazendo
menos barulho que as tuas cinquenta mil espadas, sendo mais ligeiro que os teus
seis mil cavalos e os teus onze mil camelos, correndo com melhor pontuação que
os sapatos que marcham na cadência dos teus três mil tambores. Pelas vozes que
penetram a alma como os perfumes das especiarias penetram o espírito, fiquei
sabendo que este concorrente que marcha assim pelos vales, saltando rios sem
precisar de os curvar e que não teme a inclemência dos soberanos do país das
dunas, corre agora mais perto do teu reino do que jamais lhe fora dado tentar.
Sabe, ó Polidor de Lâminas, que ultrapassando os muros do teu palácio em
qualquer das suas oito direções, vagando por elas em setenta milhas encontrarás
um teu vizinho, cada um em seu reino ora conspirando contra ti ora prestando-te
amizade conforme é a lei que dos céus se revelou e a isso obriga os príncipes,
e que andando mais quarenta milhas na mesma direção irás passar o último dos
muros dos teus vizinhos e penetrarás com os pés no calor terrível dos desertos.
Se fores seguindo por muros deste, um próximo a outro longínquo, ou chegarás à
orla dos bosques além dos quais vivem os bárbaros que fazem oferendas aos
deuses falsos se por aquele muro tirares, ou então estarás a braços com o mar
onde reinam os piratas e sobre eles a vontade dos deuses rancorosos do oceano
se por estes dois muros seguires. Atenta ao que ouvi e que decorre nas terras
que nascem quando essas finisterras se extinguem.
Cantam-se poemas, ó Açougueiro de Descrentes, na rima longa e métrica ao
modo dos grandes helenos, que além do pó das dunas houve reinos como estes que
conheceis. Foram, como o teu, nascidos de um mar seco e salgado por onde
nadavam cardumes de homens e de camelos, gente que respeitava o mundo porque o
temia, porque ainda sabia ouvir com medo as promessas de morte assobiadas pelo
vento e inscritas na violência das temperaturas. Em cada um destes reinos
houveram príncipes e reis, emires e califas, xás e marajás, cujas cortes eram
satisfeitas pela agradável doçura do néctar e da tâmara e pela suavidade da
seda, que se regavam com os vinhos mais garvios, se estimulavam com todas as
pimentas quentes, e ornavam as suas rainhas e odaliscas com cores das que fazem
vertigem e perfumes dos que amolecem as ideias. Isto eu ouvi dizer desses
senhores, ó Quebrador de Muralhas, que esses herdeiros da graça tinham
exércitos cujo passo comandado fazia tremer o chão do mundo, que anunciavam a
sua presença num medo que se escrevia com o pó do chão sobre o horizonte da
distância, e que a sua riqueza era tal que todo o seu ouro e prata pesavam numa
balança o tanto que pesava o bronze e o ferro das suas belas armas, e é pois
disso que se sabe que nenhum teve quem lhe pudesse chamar rival. Mais se diz
que fizeram poesia de beleza capaz de encantar o coração da tua filha
predileta, e tocavam em instrumentos de som cujas cordas e flautas são a coroa
dos espíritos sensíveis, e nunca temeram a ira de nenhum dos seus setenta e
sete deuses pois a todos sabiam aplacar com belas oferendas e esmeradas
estátuas.
Por isso andei, ó Debulhador de Aldeias, andei por todos estes lados como me avias comandado. Por sete mil milhas na direção das sombras do meio dia, e cinquenta e cinco mil léguas no sentido do éolo, andei até cansar os teus camelos, até exaurir o último dos teus ginetes, até não restar a mortalha dos teus dinares, para saber mais e tudo destes pretensores que comeram uma parte das tuas horas de sono e azedaram a parcela menor das tuas sobremesas, andei até descobrir o que me enviaste a saber. Assim aprendi e to trago em confiança: que não há neste mundo, além dos muros dos teus reinos vizinhos, nem nas águas que os banham nem nas areias que os aquecem, nem sequer alá de todas essas, nos lugares onde as florestas de novo despontam e nas quais se escondem pequenos clãs de selvagens, nem sombra nem corpo que sobeje desses grandes e portentosos faraós; que nunca estes se encontraram porque o dia de um, a suave manhã que lhe aqueceu a cara, chegou apenas quando a tarde fria adoecia os ossos moles e quebradiços de um outro; que a espada de um sempre fora mais firme e pesada que a do seu anterior, e o esmagador exército do prévio bebia menos toneis e comia menos pranchas de carne que o exército do sequente; e que todos foram adormecidos pela derrota tornando-se carcaças ornamentais no jardim de um mesmo inimigo invencível: e que esse inominável, ó Fazedor de Viúvas, caminha na direção do teu império desde que o sol acordava a juventude do teu avô. E, por estas novas que trago com comoção e verdade, peço-te clemência e irmandade, para que nesta noite e nas seguintes o meu pescoço possa dormir entre o peito e a cabeça, sobre a almofada da minha esposa.