53.ª Nota ao discurso de Vasco Gonçalves em Almada
A 18 de agosto de 1975, o primeiro-ministro Vasco Gonçalves proferiu um discurso em Almada. Quase cinquenta volvidos deste período, a leitura atenta, cuidada e imparcial desse discurso, informada por tantas décadas de democracia, oferece umas notas de leitura, que doravante de apresentam.
As causas profundas desta situação mergulham na guerra colonial, nos interesses em jogo exteriores a angola, e nas próprias condições de desenvolvimento dos movimentos políticos angolanos. É necessário que haja um amplo movimento de solidariedade nacional encabeçado pelos sindicatos e forças políticas e cívicas progressistas no sentido de absorver esses milhares de compatriotas que se prevê que retomem. O patriotismo e a solidariedade devem dar-se os braços com esses homens e mulheres que na sua maioria também foram vítimas do fascismo. É necessário que para a defesa da revolução portuguesa, esses nossos compatriotas sejam integrados na nossa sociedade, de pleno direito, como irmãos e que não sejam olhados como antigos exploradores de pretos. É verdade que alguns o eram, mas o traço dominante desses portugueses é o de seres humanos que perderam a maior parte dos seus haveres e do produto do seu trabalho. Paira por assim dizer uma epidemia [53] em portugal: é a dos planos. Essa planite aguda, essa mania dos planos que desacredita a verdadeira planificação, faz parte – não nos enganemos – da ideologia pequeno-burguesa que substitui o ato pelo verbo afiambrado com o fim de impedir a caminhada do povo para o futuro. Isto não significa que não deva haver planos.
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Nos tempos remotos, inventaram-se as coisas úteis para a preservação
humana. São as coisas que em nossos dias se diriam domínio público,
distribuindo-se pelas mãos de dedos oponíveis no mais grátis possível e
guardando-as na memória como invenções sem inventor. Assim foi com o roçar de
pauzinhos ou pedrinhas para encantar o fogo, ou o delapidar madeiras para que
rodem, ou o delapidar rochedos para que contem estórias. Há que reconhecer o
mérito do que fizeram estes antepassados, pois sem as suas macaquices desapegadas,
dificilmente teríamos continuado a progredir até isto em que estamos.
Depois disto, inventaram-se as autorias. De súbito, através de vários
súbitos, um pouco por todo o lado, criou-se a convicção de que a novidade era
um produto diferente da normalidade, que ela, tal como uma cria, tinha
progenitores e linhagem. Teve isto por resultado uma acumulação, pois àqueles a
quem se reconhecera autoria sobravam excessos que de outro modo estariam
repartidos com indiferença, e em pouco mais de uma semana, um autor era já
capaz de comer mais frango que um não-autor. Não admira que por todo o lado,
sempre que estes dois se encontram, o autor tenha tendência a engolir o outro.
Então, estendeu-se essa crença à mais remota das possibilidades, isto é, à
normalidade, e julgou-se que até ela e tudo o mais era fruto de uma origem
apelidada. A leveza das árvores e das rochas aproximou-se do chão, e o ar que
sobre elas pairava foi ocupado por divindades. Primeiro muitas, depois umas.
Ah, estranha esta singular ideia, de uma autoria única, mas em vez de a
condenar, o fluxo da natureza deu-lhe a graça da invencibilidade. É que, tal
como o autor tem a pança mais recheada que o outro, a divindade singular sofre
de ciúmes que não habitam os deuses vários. Encontrando-se debaixo de um mesmo
templo, não há guerra que os muitos vençam aos unos, apesar de pequenas
vitórias em batalhas perdidas nos passos da história.
Foi só após tudo isto estar inventado que se inventaram as ideias. Até então, os símios ora se preocupavam com aquecer o inverno, ora com encantar as colheitas para serem fartas, ora com o impedir transtornos eternos. Estando tudo isso resolvido, foi possível que alguém se dedicasse, no assento de uma cadeira confortável, ao exercício vácuo de saber quanto pesa uma abstração. Com isto, tal como as aves voam pelo céu, foi possível aceitar que também os peixes voam pelos mares, que tal como há humidade na água também a há no ar, que os gases circulam nos dois meios, que não há, aliás, maneira de os distinguir senão pela proporção que cada um tem dos mesmos elementos, a qual determina que nele se voe ora com barbatana ora com asa, que neles se respire ora com narina ora com guelra, que metendo o mesmo volume de cada um no copo, um boiará sobre o outro. Não fora esta excelsa competência, e ainda hoje as epidemias seriam tragédias que carcomem a vida, em vez de irritações capazes de flutuar.