52.ª Nota ao discurso de Vasco Gonçalves em Almada
A 18 de agosto de 1975, o primeiro-ministro Vasco Gonçalves proferiu um discurso em Almada. Quase cinquenta volvidos deste período, a leitura atenta, cuidada e imparcial desse discurso, informada por tantas décadas de democracia, oferece umas notas de leitura, que doravante de apresentam.
Porém a hierarquia considerou que tal não devia acontecer e eu, com grande mágoa, abandonei a ideia a fim de não criar qualquer problema entre o estado e a igreja. Contudo, do quinto governo, no entanto, fazem parte católicos progressistas. Exorto daqui os católicos progressistas, amigos da sua pátria e do seu povo, que participem ativamente na obra de reconstrução nacional a que deitamos ombros. O país que queremos é um país para todos os portugueses, tanto para os crentes como para os ateus. É para todos. Neste preciso momento em que vivemos os maiores ataques até hoje desencadeados pela reação, temos de receber na nossa pátria milhares e milhares de portugueses retornados de angola. Não se atribua ao vinte e cinco de abril esta difícil situação, mas antes às condições específicas em que aquele território tem sido descolonizado, entre as quais avulta o desejo do movimento das forças armadas de que angola ascenda à independência livre de neocolonialismo. Não foi possível às autoridades portuguesas evitar a presente situação em angola na qual poderão ter a menor parcela de culpa [52].
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O dia mais negro da história da matemática tinha começado com os fios de um sol brilhante a brincar com as penas dos passarinhos que debandam em cardumes alados na orla da manhã, com o abraço de uma brisa suave e fresca sobre as roupas mais desapegadas dos corações e os cabelos desenvoltos que dançam no ar. No fundo de todas as paisagens, as cegonhas aconchegavam pequenas crias entre os ninhos e os seus corpos quentes e pulsantes de vida, e as vacas pastavam felizardos campos abertos e quase selvagens. Tão agradável estava essa manhã, que só os medos e as promessas que a humanidade faz a si própria poderiam explanar a ausência de alegria nas faces dos discípulos e discípulas que caminhavam para os templos da aprendizagem como réus. O desânimo insano de que sofriam quase ameaçou contagiar a euforia da criação, mas por sorte a natureza ainda tem dons que escapam o desígnio dos mortais e, fosse por feromonas ou outros meios, as forças do cosmos puderam encaminhar as sombrias criaturas até ao dentro interior de blocos imensos de betão, reservando-as aí até que lhes passasse o desânimo sem senso. Aninhavam-se em conjuntos de semblante noturno, como morcegos dispostos à moda das estalactites, em cavernas separadas por corredores secos e vazios, reprimindo o chiar para não quebrar a concentração com que os demais suprimiam a vontade de voar livres e irrequietos. Mas, ao invés das matilhas de morcegos, estavam sob supervisão, como se em cada câmara da gruta ressonasse um urso com mais apetite por roedores do que por mel. Uma figura sisuda e pouco amante da efervescência da juventude que ameaçava propagar pela multidão de discípulos como a pandemia de uma doença de que há muito se haviam curado. Estes, avançavam tenebrosos pelas filas de carteiras distribuindo papelinhos embalados em outros papelinhos, matrioscas de papel com segredos onerosos cuja revelação era comandada por um toque acenado pelo ponteiro dos minutos. Quando soou, aos réus foi dada a oportunidade de rasgarem o selo dos papéis. Uns mais rápidos, outros mais lentos, mas em geral pulsavam como os capitães de um navio tomado por piratas que incitavam, com a ponta da cimitarra enterrada nas costelas, a que avançassem sobre a prancha para escolher a própria morte num salto em que lhes restava apenas o tempo de orar pela clemência do oceano. Mergulhavam todos. O dia mais negro da história da matemática foi marcado pela quarta questão, aquela em que se havia poupado o exemplo clássico do campo agrícola e o exemplo simpático da população em crescimento. Era um exercício cuja fração estava carregada de filosofia e psicanálise. Nem sequer um examinador sabe em quantas vezes se poderá dividir um icebergue para que nele se distinga o vestígio da responsabilidade amaldiçoada, mas isto mesmo se exigia daquelas crianças enterradas em aflição. As canetas riscavam papel como os livros antigos descrevem as pragas dos gafanhotos, deixando quase nada de branco atrás, produzindo a fome e a desgraça de quem tiver a necessidade de espaço e de possibilidade. Insensíveis, pupilos e pupilas descarregavam números sobre um dilema que as palavras mal são capazes de enfrentar, traçavam linhas unindo algarismos como se de um número apenas se tratassem, irrompiam por cálculos que não se podem exigir ao mais sábio dos juízes. Como se alguém tivesse esquecido uma fruta antiga, podrida, sobre um altar, e os vermes aos magotes a atacassem por todos os lados até deixar de se sentir qualquer perfume e só restar o nojo, o ponteiro dos minutos avançou até poder avançar também o das horas. Nesse instante, algo findou. Os ursos que dormitavam nas cavernas diriam ter sido a infância. Os infantes e infantas diriam ter sido a pressão. O ar parecia-lhes mais leve. O sol voltara a brilhar. Com meia dúzia de contas haviam desvanecido o horror que persegue os seres éticos até ao momento da dura e pesada expiação. O dia mais negro da história da matemática retomava os ares com que principiara, e os pássaros já chilreavam de novo em bandos que circulavam pelo ar.