50.ª Nota ao discurso de Vasco Gonçalves em Almada

A 18 de agosto de 1975, o primeiro-ministro Vasco Gonçalves proferiu um discurso em Almada. Quase cinquenta volvidos deste período, a leitura atenta, cuidada e imparcial desse discurso, informada por tantas décadas de democracia, oferece umas notas de leitura, que doravante de apresentam.

Como ficarmos calados perante a ação temporal [50] profundamente reacionária de alguns párocos de aldeia que, dos púlpitos ou em gazetas paroquiais, semeiam o ódio em vez do amor do próximo?



[50]

Ui! O que chovia nessa noite longuíssima. Lembro-me. Parece que todo o céu choveu de uma só vez, inteiro embora às partes, fragmentado em águas e eletricidades. No sombrio da noite choveram oceanos e relâmpagos que bastassem para que o país mais seco se pudesse florestar, para que o país mais industrial pudesse manter todas as suas máquinas em perpétua ação. No instante que corre do ocaso à alvorada caiu uma extravagância. E nós, sentados pelas cócoras em torno de uma fogueira tímida e cobarde. Até o fogo estava como nós, tremendo num desespero mudo, sabendo que o mais suave daqueles trovões bastaria para o destruir por completo, retirar-lhe todo o sumo da existência e voltá-lo ao lugar invisível onde vivem quase todas as coisas passadas. Mal me lembro. Nem sequer posso jurar. Acho que nem uma única vez olhámos os olhos uns dos outros, com medo de ver neles o terror que estava a cantar vilanias e a prometer castigos dentro de cada peito. Acho que nem uma vez tive sequer a coragem de confirmar, de deixar que o módico da razão assomasse para sequer ponderar uma confirmação. O horror era tal. Tão vasto dentro de mim que nunca me passou pelo espírito considerar que talvez sofresse de uma cobardia, um ataque de medo, que talvez apenas eu sentisse o peito amarrado a um sentido vergonhoso e que talvez os outros ainda soubessem, ainda pudessem, ainda conseguissem sorrir e cantar. Mas assim fiquei e agora, agora que já passou e voltei a saber reflectir, agora que o sol já rasga o céu para aquecer os prados e as lagoas, só posso indagar. Aquele terror roubou-me as provas que permitem a aferição. Foi como uma vaga sanguinária do oceano sobre a praia singela no meio da tempestade, galgou sobre uma noite e ao regressar ao seu reino levou as algas e os berbigões, as areias e as alforrecas, os barcos e as redes, e deixou apenas o lixo. A minha memória só ficou com o lixo. Para quê, então, perguntar-me o que ocorreu nessa noite? O que senti! Posso apenas dizer isso. O que senti eu sei. O ocorrido é-me estrangeiro total, aconteceu demasiado fora de mim, e nessa noite eu estava completamente dentro de mim, inteiramente dentro, no vórtice desse terrível sentimento. Nessa noite, provei diálogos com a morte. Sim, foi isso que senti. Que a morte falava comigo e me fazia convites atrás de convites, e eu, nem sequer capaz de resistir, respondia como o funcionário do banco nos filmes de cobóis. Isso aconteceu? Já disse que não posso saber o que aconteceu. O que senti estava tomando conta da minha existência completa. O que foi, eu nunca saberei. Nunca. Porque na memória não guardei um segundo de mundo exterior a mim, e porque o que nela guardei é tão forte, tão magnético, que se um outro narrar algo diverso o meu coração vai cuspir nessa estória, acusar de mentira e renunciar até à amizade. O terror roubou-me qualquer verdade sobre essa noite. Então, agora, sempre.


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