49.ª Nota ao discurso de Vasco Gonçalves em Almada
A 18 de agosto de 1975, o primeiro-ministro Vasco Gonçalves proferiu um discurso em Almada. Quase cinquenta volvidos deste período, a leitura atenta, cuidada e imparcial desse discurso, informada por tantas décadas de democracia, oferece umas notas de leitura, que doravante de apresentam.
Desejaria agora falar da igreja. E peço a todos os camaradas a melhor compreensão deste assunto. Sempre tenho combatido o anticlericalismo. O senhor cardeal patriarca de lisboa sabe-o bem pelas conversas que tem tido comigo. Reconhecemos que temos cometido alguns erros em certas campanhas de dinamização cultural, por exemplo, e a decisão de não entregar a rádio renascença ao patriarcado foi, quanto a mim, um erro grave. Contudo, os erros que cometemos não justificam de modo nenhum a campanha que determinados membros da Igreja, e dos mais eminentes, têm ultimamente desenvolvido. Nós pensamos que a igreja pela sua missão evangélica deve ser uma aliada da revolução democrática e socialista portuguesa, que só pretende acabar com a exploração do homem pelo homem. Ora isto é um objetivo evangélico, libertar e dignificar o homem é um objetivo evangélico! [49]
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Reparte-se, como é notável e previsível nas coisas que são fruto da sabedoria revelada, em número de quatro, como sejam o número dos cantos de que se faz a terra, ou dos quadrantes em que se monta um mapa, ou das direções sobre as quais se navegam horizontes, ou das estações que imperam sobre as criaturas que se poupam ao frio e ao calor, embora sejam estoutras quatro: a fome, a morte, a guerra e a peste. Cada qual destas e todas à sua vez são capazes de firmar no homem uma dignidade evangélica e com toda a liberalidade despojam o espírito das carnes para que este possa verdadeiramente voar para o seio dessa mãe que se convenciona tratar pelo artigo masculino para que não se firam as suscetibilidades de quem costuma andar com espada e lança na mão. Este objetivo, escrito há muitas eras pelos mais pródigos discípulos, crê-se que singrará quando a intenção maior, rachada entre estes quatro sopros virtuosos, puder aconchegar os estômagos e as urnas, as valas e os hospitais. Veja-se como os povos mais fervorosamente crentes, e até os que o são debaixo de um pretexto de sarcasmo ou indiferença, tanto se esforçam para atingir o cume dessa liberdade digna: devotos, recolhem a parte maior dos víveres em poucas residências para beneficiar os mais pobres com a fome santa; misericordiosos, fazem das suas clínicas coisas extravagantes e dos seus remédios artigos de luxo opulento para que os menos felizes possam caminhar mais francamente no abraço da morte alva; piedosos, colocam os seus mais elevados homens de ciência a engordar o raio letal das suas flechas para garantir a salvação dos povos irmãos com a graça bélica; beatos, afadigam-se a estuprar os ares e as águas, a treinar a qualidade das maleitas, a dispensar partículas excitadas pelos ares para galardoar os mais infelizes com a dispensa venerável que a doença oferece.