48.ª Nota ao discurso de Vasco Gonçalves em Almada

A 18 de agosto de 1975, o primeiro-ministro Vasco Gonçalves proferiu um discurso em Almada. Quase cinquenta volvidos deste período, a leitura atenta, cuidada e imparcial desse discurso, informada por tantas décadas de democracia, oferece umas notas de leitura, que doravante de apresentam.

E é muito mais fácil parar durante meia hora o trabalho, do que amanhã ter que defender, com o risco do próprio sangue, com a própria vida, as conquistas revolucionárias. Conscientes de que a batalha da produção e da economia não pode ser separada dessa ação de massas, nem tão-pouco prejudicada, exorto os trabalhadores a compensar essa meia-hora de amanhã [48], num determinado dia e hora, para que assim demonstrem a portugal, aos seus compatriotas, a sua disciplina revolucionária, o seu civismo, o seu ardor patriótico – o seu amor à liberdade!



[48]

Ao todo, chegariam sete camiões carregados durante a manhã. Outros cinco chegariam só depois do almoço. Atrasados, talvez. Embora atraso seja um termo difícil de aplicar ao caminhar de uma caravana carregada de tempo. No seu gabinete, da única janela que permitia ver o céu dentro do pavilhão, a diretora olhava para a carreira de transportadores a descarregar os caixotes quase infindáveis, distribuindo-os pela planta conforme as indicações de dois encarregados. Em fila, os camionistas refilavam a espera com a voz da buzina. O tempo que ali ficavam à espera pagava-se com custo, e nem todos sofriam dores inversas às dos patrões. Esta, mais que outra coisa, foi talvez a única capaz de emocionar a diretora: sonhar com uma força de trabalho tão dedicada. Ao invés, forçara-se a despender uma quantia não pequena para poder equilibrar o tempo que os assalariados insistiam em roubar aos acionistas. Ela ria-se quando pensava que eles imaginariam vingados os seus esforços. Talvez com outra direção. Não ali. Debaixo da sua mão comedida, da sua mestria em tranquilizar e apaziguar diferendos, um ataque desse género seria sempre estéril. E que era aquele pequeno investimento quando comparado com um aumento salarial? Afinal, oitocentas e cinquenta e oito ampulhetas de cinco minutos só precisam de se pagar uma vez. Cento e quarenta e três aumentos são uma renda perpétua. Para quê ceder, enquanto o tempo é a única arma, esse tempo que em qualquer lado se pode comprar?


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