46.ª Nota ao discurso de Vasco Gonçalves em Almada
A 18 de agosto de 1975, o primeiro-ministro Vasco Gonçalves proferiu um discurso em Almada. Quase cinquenta volvidos deste período, a leitura atenta, cuidada e imparcial desse discurso, informada por tantas décadas de democracia, oferece umas notas de leitura, que doravante de apresentam.
Não é uma ação reivindicativa, é uma ação patriótica e verdadeiramente moral. É preciso que as pessoas tenham bem consciência disto. Que ao assumir essa responsabilidade, estão a assumir um grave risco moral, da posição que amanhã tomarão. Os trabalhadores portugueses devem alertar e mobilizar o país com a sua ação. Unidos, coesos, conscientes dos seus deveres para com os seus compatriotas, essa paralisação não é uma ação de carácter laborai, mas uma ação patriótica destinada a alertar a consciência de todos os portugueses para a defesa das conquistas obtidas depois do vinte e cinco de abril. Eu repito, entre outras, algumas destas [46] conquistas obtidas.
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Pares de meias, catorze, dois para cada dia da semana. Camisolas interiores, quatro bastante quentes, duas mais frescas, cinco que se diriam razoáveis, ou seja, demasiado quentes para o tempo agradável e demasiado frias para o inverno forte. Um chapéu de palha, roído por algum animal que o terá encontrado numa tarde de julho ou de agosto, quando tinha ficado esquecido em cima do trator durante a hora de almoço. Um par de galochas quase novo, segundo a senhora que as vendeu, apesar de a água já se conseguir infiltrar na do pé esquerdo, por uma folga junto ao calcanhar. Um pacote de lenços de assoar de marca reputada, folha dupla, completamente vazio. Um relógio de bolso antigo, cujas cordas já recusam fazer avançar qualquer segundo, e a memória já esqueceu a origem e a linhagem, mas que se preserva sobre um móvel como testemunho de que se teve em tempos uma genealogia. Um candelabro de sete braços, feito em qualquer fábrica chinesa, de encaixes demasiado largos para as velas normais, obrigando a que se derreta um pouco destas para o buraco antes de as assentar. A lembrança de uma viagem com a escola à cidade, os prédios altos e cheios de vidro, as estradas largas de alcatrão liso e horizontal, a enormidade de gente sem produzir multidão, a terrível ausência do canto das aves, do restolhar das folhas, do uivo do vento. A marca da queimadura do fogão sobre o antebraço, num pedaço de carne descolorada e rija.