45.ª Nota ao discurso de Vasco Gonçalves em Almada
A 18 de agosto de 1975, o primeiro-ministro Vasco Gonçalves proferiu um discurso em Almada. Quase cinquenta volvidos deste período, a leitura atenta, cuidada e imparcial desse discurso, informada por tantas décadas de democracia, oferece umas notas de leitura, que doravante de apresentam.
Eu quero aqui afirmar com veemência que considero isso uma ação de paz e não uma ação de guerra. É uma ação de paz. Desejo também afirmar, que é uma ação de unidade e não uma ação de divisão. Porque é antes de o perigo estar sobre nós, que nós deveremos lutar contra ele. É uma ação profundamente moral, [45] não é uma ação partidária.
[45]
Os dragões, criaturas cuja perfídia namora o amor pelo ouro reluzente, têm as carnes cobertas de escamas frias e duras. É verdade. Toda a superfície do dragão é rigidez e crua frialdade, um poema vivo às ambições e aos desejos dos portadores de nomes que se desejam imortalizar. Mas o calor que lhes emana das narinas fumegantes, do bafo abrasivo, também ele nasce das mesmas bestas. Longe dos lugares onde uma mão amiga consegue tocar, muito além daquilo que o olho pode ver, há uma profundeza onde o dragão, réptil invernoso, é feito da mesma matéria quente que faz pulsar a vida a que outros seres dão de nome paixão. Lá, nesse abismo onde a cor não chega, reside uma brasa capaz de gritar perante a injustiça e o amor, de chorar aquando duma tragédia, duma comédia, de tremer ante a felicidade e a tristeza. Nesse baixo, arrastado para os fundos da gravidade, até o dragão pode ser moral.