44.ª Nota ao discurso de Vasco Gonçalves em Almada
A 18 de agosto de 1975, o primeiro-ministro Vasco Gonçalves proferiu um discurso em Almada. Quase cinquenta volvidos deste período, a leitura atenta, cuidada e imparcial desse discurso, informada por tantas décadas de democracia, oferece umas notas de leitura, que doravante de apresentam.
Aqui, é o anticomunismo que durante decénios foi a arma de agitação de que se serviram os fascistas para manter o povo no obscurantismo e na ignorância. Não tenhamos ilusões de que se voltar ao fascismo, este será ainda mais feroz, ver o caso do chile, do que antes do vinte e cinco de abril. Teremos mais ferozes do que antes, uma pide, uma censura, a exploração das classes laboriosas e dos pequenos comerciantes, industriais e agricultores, perderemos a reforma agrária, as nacionalizações, o direito à greve, o direito de livre associação e reunião, o direito à formação de partidos políticos, o direito à liberdade de expressão e de pensamento, etc. Numa: palavra, os mais elementares direitos dos cidadãos. Sim, portugal vive de novo o perigo do fascismo. A onda de agitação que tem coberto largas zonas do país tem grandes semelhanças com as situações pré-fascistas que se têm vivido na europa. É necessário que todos os portugueses democratas, progressistas e patrióticos tenham bem consciência dos perigos que atravessamos, e que se unam! Que se unam na defesa das conquistas alcançadas depois do vinte e cinco de abril. À frente de todos, os trabalhadores, operários, camponeses, pescadores, na vanguarda do processo de democratização do país e de transição para o socialismo. A paralisação [44] do trabalho das onze às onze e trinta proposta pela intersindical para amanhã é uma ação que eu considero justa de defesa do nosso povo contra o perigo fascista.
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O domínio dos artistas e dos pensadores sempre produziu essas coisas. Por
isso que tantos os tenham por sacerdotes de calibre menor. E outros tantos por
assassinos sem vestígio de escrúpulo. Dizem eles: isto é coisa viva! Embora
tudo o que lhes escorra dos dedos esteja em estado letal. Oferecem um lugar em
que a carne não decai, em que a respiração nunca pesa, em que a perda e o ódio
não degeneram alegrias, em que o movimento é tão aparente que poderá parecer
que uma virgem se suicida ao lado do seu amado para reemergir viva e pronta
para o mesmo suicídio após o pano cair e subir umas três vezes. Oferecem a
antítese da vida, ou seja, a morte.
Algum selvagem se tornou notável por fazer essa mesma acusação, apesar de
não a ter feito exatamente assim. Diga-se, não acusou propriamente de
homicídio, que é uma espécie de roubo da vida. Não. A acusação foi de uma
espécie de roubo da alma, que no fundo é um crime que não tem nome, nem sequer
morte, já que nenhum jurista de nenhum povo alguma vez acreditou que a alma é
uma possibilidade. Bem, o que decorreu foi que esse selvagem mandou algo contra
a lente de uma máquina fotográfica, ou contra o próprio fotógrafo, gritando
algo assim deste género: nem te atrevas a paralisar-me a alma. Evidente, isto
sabe-se apenas porque precisamente esse momento, precisamente esse instante em
que houve vida nessa única vez, foi paralisado pela máquina. E agora o registo,
a carcaça oca onde só cabe a alma do selvagem, passeia pelo mundo exibindo-se
como se fosse coisa melhor que a vida. Um desplante. Mas não é novo. No fundo,
sempre se correram tais riscos com esta gente. Já antes havia dedos que
acusavam. Apontavam-se firmes na direção das artes.
Algum iconoclasta o disse imortalizando quase tudo o que não fosse o seu
nome: o gesto e a vontade. Fez-se primeiro, apontando com um dedo
propositadamente direcionado. Logo a seguir fez-se, propositadamente
direcionando um jorro de sentimentos. Mas não acusou exatamente um assassínio,
que é a infração de uma lei numerada, das que se decalogam à moda dos que
procuram transes nos algarismos e dentro de qualquer quantidade descobrem
qualidades inférteis e comoventes. Não. Sucedeu que acusou de heresia, que é a
infração de todas as leis, de um código e de uma constituição, todas inteiras,
uma apologia à traição. O que sucedeu é que esse iconoclasta saiu de casa e
bateu com os olhos no mundo e nele viu o suor dos artistas e pensadores,
exclamando perplexo perante cada um: nem te atrevas a paralisar-me a criação. É
que em cada embate visual sofria a ameaça de uma nova génese sob o verbo de
outra voz, e portanto o nascimento de uma religião tão nova que seria capaz de
ofuscar a luz das mais antigas. Isto sabe-se porque nos seus esforços penosos o
iconoclasta descobriu o mesmo que o objeto da sua afeição: que é tão fácil
extinguir o que está vivo como é impossível eliminar-lhe todos os fósseis. Da
pujança do iconoclasta sobra-lhe quase tudo exceto o nome, isto é, o gesto e a
vontade e ainda a falência. Porque a falência da vontade é mais pesada e antiga
que a fotografia e a arte.
Algum filósofo o demonstrou gravando o nome no conhecimento de milhares de gerações. Demonstrou-o fazendo prova de uma verdade na qual tinha tropeçado, ou seja, admoestando com veemência. Mas não censurou a matança, que é o hábito de remover ideias com grave permanência. Não, o que acusou foi uma excisão diferente, não da ideia no seu todo, mas apenas da substância viva dentro dela, isto é, daquele pedaço da ideia que, tendo nascido, se convenceu que teria direito a viver. Ocorreu que este filósofo conversava conversas em terreno amplo e aberto, e viu que enquanto uns anuíam com a cabeça, havia ainda quem o fizesse com o cálamo, e ele avisou: nem te atrevas a paralisar-me o pensamento. E, porque já era velho a mais para continuar em guerras, deixou-se vencer: dos seus discípulos sobram os holocaustos das ideias que um dia respiraram no seu bafo. Restaram os cadáveres delas, decorados com o seu nome.