43.ª Nota ao discurso de Vasco Gonçalves em Almada
A 18 de agosto de 1975, o primeiro-ministro Vasco Gonçalves proferiu um discurso em Almada. Quase cinquenta volvidos deste período, a leitura atenta, cuidada e imparcial desse discurso, informada por tantas décadas de democracia, oferece umas notas de leitura, que doravante de apresentam.
Há uma situação muito semelhante entre a implantação do nazismo na alemanha e a que se vive agora em portugal. Na alemanha, era o antissemitismo que explorava os mais baixos [43] sentimentos do povo.
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A palavra que corria mais lesta era que se sentia a presença no ar quando se ouvia o tilintar de moedas inocentes pelo chão. Era um aviso: se algum bolso já tinha sido vazado de um corpo virado de pernas para o ar, os bolsos mais rasteiros ao chão deviam prestar atenção e pisgar-se tão breve quanto possível. Os que ficassem, era com eles. Ninguém lhes iria louvar a coragem. No fundo, são os parvos, não os bravos, quem enfrenta um caminhão com as mãos nuas. A música dos trocos. Isto era o que mais se contava nas consciências daquela gente. Mas na inconsciência, havia indícios mais fortes. Por exemplo: a cabeça. A cabeça vinha bem acima das outras, podia-se vê-la em qualquer corredor. E a vista, sabe-se, alcança mais que os ouvidos. Embora numa direção mais fechada. Apesar disso, aquelas aventesmas de olhos sempre fitos no chão, nunca se aperceberam que podiam ter evitado dissabores se usassem mais dos olhos que tinham na cara. A cabeça, bem antes do tilintar, já anunciava desgraças. Além disso, explicava mais. Explicava, entre outras coisas, porque é que aquilo só começara depois do verão. É que antes dele, a Magda ainda não tinha dado o salto: a cabeça dela rasava as mesmas alturas que as do resto da criançada. Foi com o salto que a Magda descobriu que tinha um nariz mais elevado que a maioria daqueles penachos, e que podia por isso dar uso ao tamanho avantajado que obteve nos meses de calor para fazer render trocos e massajar o ego. É que o ego dela bem precisava de massagem. Naquela família, pois claro. E vinda dessa família, pois mais. Eram enjeitados. Uma linhagem que merecera, pelo trabalho árduo longo de várias gerações, o desprezo e a desconfiança da comunidade. Dizia-se um apelido e era ver as caretas que explodiam em resposta. Uma desses, então? Coitadinha. Coitadinha era o melhor que lhe podia calhar na rifa. E bem raro era. Desgraçada era mais comum, em parte por ser boa verdade. Vinha de gente sem graça, uma linhagem que todos os deuses se tinham recusado a abençoar. Não bastasse isso, em casa o desprezo dava as mãos ao cinto, e o rabo da Magda estava já farto e treinado daquele desporto intragável. Mas, até ao verão em que deu o salto, por farta que estivesse só se podia prostrar. Que sorte teve ela! Ainda as primeiras chuvas de setembro não tinham caído, e já descobria que não era só o corpo dela que tinha jeitos para a prostração. Afinal, os mais rasteiros da escola também haviam nascido com essa aptidão. Quem diria? Estudiosa para essas coisas, a Magda de nariz mais elevado que os escalpes circundantes não levou tempo a dominar as artes em que o pai era mestre. Que elevação que sentia no peito! Afinal havia boa razão para fazer tais exercícios. Com uma vantagem acrescida: é que os bolsos da Magda nunca tinham nada para tilintar quando o pai lhe botava as mãos no pêlo; já vinham vazados de cobre e de guloseima. Já os bolsos dos rasteiros, esses vinham sempre com três ou quatro círculos de esperanças, e juntando dois aqui e cinco além, já se poupava para uma fartura e um refrigerante na tasca da Dona Emília, essa senhora composta que tanto dó sentia por conta das origens menos felizes da rapariga. Que sorte! A Magda lá ia pelos corredores com o nariz alto. E que sorte maior. Aqueles dois ouviram o tilintar a tempo de se esconderem: hoje, alguma baixeza vingou.