41.ª Nota ao discurso de Vasco Gonçalves em Almada
A 18 de agosto de 1975, o primeiro-ministro Vasco Gonçalves proferiu um discurso em Almada. Quase cinquenta volvidos deste período, a leitura atenta, cuidada e imparcial desse discurso, informada por tantas décadas de democracia, oferece umas notas de leitura, que doravante de apresentam.
Mas agora, isso aqui está um exemplo um exemplo da tal libertinagem e de como se engana o povo. E eu pergunto que confiança pode ter o povo em jornais deste tipo. Qualquer observador com um mínimo de honestidade que lesse o discurso que eu proferi na intersindical, via logo à primeira vista, e não precisava de ser muito inteligente, qualquer homem vulgar via logo que faltava acrescentar à propriedade privada, dos meios de produção. Todo o conteúdo do discurso era nesse sentido. Eu aí bem frisei, como hoje frisei aqui, a necessidade das classes trabalhadoras conseguirem aliar assim os pequenos comerciantes, os pequenos industriais, os pequenos agricultores [41].
[41]
Numa palavra, o europeu soube resumir os filhos dos lusitanos à sua mais
evidente qualidade. Numa só palavra, destacou deles a verdade que por vezes
escapa aos ouvidos, quase sempre oculta ao coração, mas que os olhos nunca
serão incapazes de encontrar.
Sim, é verdade que quando roncam os sons que proferem tocam em todas as
superfícies, exploram todos os recônditos. Treinam, até, qualquer das artes
sonoras: eles palram, piam e até chilreiam como as aves canoras. Não há que
admirar que um humano regular se deixe convencer que se tratam de criaturas
iguais a si. Quando vocalizam, várias vezes articulam os barulhos da garganta
ressoando padrões conhecidos, que os aproximam de todos os povos. Ah fazem
contas como nós!, exclamam os mais ouvintes. Ou ainda, Cremos em liturgias
semelhantes! Porque o ouvido é tão fácil de engodar, é até fácil para a pessoa
comum, encontrando-se rodeada por esta raça ibérica, festejar os seus festejos,
partilhar nas suas celebrações. Ou dizer convictamente que por ali vão nascendo
poetas.
Claro, é indiscutível que, quando choram, o peso que os oprime aparenta as
mesmas cores e vestimentas do que faz o luto dos povos sensíveis, que quando a
dor os derrota ela tem a marca das tragédias mais universais. Ou que, ao
descobrir o primeiro suspiro de um recém-nascido sobre os braços cansados de
uma parturiente sorriam com uma luz que julgamos iluminar qualquer primata
despido de pêlo, que rujam com ferocidade vívida e empolgante quando descobrem
o sucesso entre um dos que lhes são caros. Por isto os corações das pessoas
comuns imprimem com força a sensação de fraternidade, a suposição de igualdade,
e estas se convençam que em nada diferem delas estes ocidentalo-meridionais.
Só o olho conserva na sua natureza a pura vocação dos empiricistas, capaz de recusar os sussurros velados porque para si, a realidade: ei-la. Da sua órbita iluminada, consegue analisar a massa humana que habita portugal, mastigar as suas divergências e espremer o único sumo que dela pode ser conseguido. Então, o olho provará desse sumo, testar-lhe-á o perfil e o aroma, e será capaz de apontar com um só dedo àquilo que sobrevive a destilação. Todos os olhos o fazem? É certo. A questão que se coloca não é se todos os olhos os fazem, mas qual olho é mais capaz em fazê-lo. E esse olho é o olho do europeu. Apurado pela língua dos francos e dos germânicos, aprendeu a observar melhor que os seus congéneres, a descobrir as verdades que até ao olho regular conseguem fugir. Este olho olha tudo e tudo vê. Estejamos gratos por isso. Só por isso o europeu foi capaz de olhar a mancha dos portugueses e ver nela uma palavra: atarracados.