40.ª Nota ao discurso de Vasco Gonçalves em Almada
A 18 de agosto de 1975, o primeiro-ministro Vasco Gonçalves proferiu um discurso em Almada. Quase cinquenta volvidos deste período, a leitura atenta, cuidada e imparcial desse discurso, informada por tantas décadas de democracia, oferece umas notas de leitura, que doravante de apresentam.
Eu a propósito disto de propriedade individual, queria dizer o seguinte. Outro dia, quando fui à intersindical e produzi lá um discurso, a certa altura eu falei na propriedade privada, e não acrescentei a propriedade privada dos meios de produção. É claro que houve logo vários pasquins, desses tais libertinos da informação, que eu não tenho nome nenhum de acusar, é o jornal novo, o expresso, o tempo. Logo disseram que eu era contra a propriedade privada e, portanto, com certeza contra as moradias das pessoas [40], contra os objetos das pessoas, contra as joias das pessoas, etc.
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Sejam estes os contrariantes destas moradias, e outros mais: os escadotes que se usam para subir uma fachada com o intuito de ir limpar caleiras; os andaimes adossados para se poder lavar a cara de um prédio ou renovar aquilo que o cobre; três grandes malas de bagagem que esperam o veículo que as transportará numa viagem; a embalagem volumosa de uma estante desarticulada em pedaços novos e laminados enquanto as mãos procuram chaves em bolsos confusos; o antebraço de um juvenil cujo corpo aguarda o movimento repousando numa linha oblíqua ao chão que é como dizer uma linha oblíqua ao edifício; uma bicicleta de roda estrangulada em convite à urina dos canídeos que ambulam pela rua; o sofá abandonado por qualquer traição mas ainda esperançoso de vislumbrar uma adopção; as placas de apelo à carteira que prometem camas com pequeno-almoço ou ajuda com impostos ou consultas à vista ou consultas à lei; etc. etc. etc.