39.ª Nota ao discurso de Vasco Gonçalves em Almada

A 18 de agosto de 1975, o primeiro-ministro Vasco Gonçalves proferiu um discurso em Almada. Quase cinquenta volvidos deste período, a leitura atenta, cuidada e imparcial desse discurso, informada por tantas décadas de democracia, oferece umas notas de leitura, que doravante de apresentam.

As autoridades militares têm o dever de honra de atuar firmemente para que a história mais tarde [39] não venha a considerá-las cúmplices das forças reacionárias e antipatrióticas. Só garantindo a ordem se pode salvaguardar a integridade física dos cidadãos, e propriedade individual, os mais elementares direitos que foram restituídos a cada um de nós no vinte e cinco de abril.



[39]

Sempre. Desde que Heródoto a inventou num acidente sistemático, um tropeço com a cadência de uma caminhada, sempre foi mais tarde. Uma criatura desfasada, árvore voadora cujas raízes se estendem para apalpar um solo que lhes está vedado. Apenas mais tarde, por no então, deixa de o ser. Durante o então, tudo responde pelo mesmo nome, tudo partilha a mesma identidade. Durante o então, há apenas Acontecimento. De seguida, dilui-se, a sua substância esfuma como a metade encimada da ampulheta que empurra qualquer grão para se tornar vazio. Aí, quando tudo é preenchível, já há a possibilidade da História, o esticar de fios sobre o nada, estáveis apenas porque a vontade os prende num cá, num acolá.

Trágicos são os tempos em que a História se veste com as roupas de um Agente, apresentando-se em côrtes e praças com o traje do Destino. Como o inventor maldito de Mary Shelley, os seus sacerdotes julgam domesticar o próprio Tempo, ferem o orgulho das Forças Antigas, montam árvores com as partes que, abandonadas pela vida, bóiam errantes pelos rios e, proclamando o Presente como Passado roem como ácido a carne do Acontecimento. Mesmo nesta tragédia, a História, mais tarde. Mas tem a musculatura de um pastiche, ainda mais frágil e monstruosa do que quando emerge na pena de um Cronista.

Cómicos são os tempos em que o Acontecimento se embrulha nas roupagens elegantes da História, crendo com viva força que as teias urdidas para ocupar com som os serões familiares ultrapassam a força do Acaso. Como o detetive de Douglas Adams, os seus cantores procuram o verso com mais afinco do que ao significado, desembocam sonoridades confiando que o acaso ocupará os vazios com matéria apropriada, exclamam surpresos perante o inesperado que convidaram, e deixam-se convencer que o Agora tem Causa. Mesmo nesta comédia, a História, mais tarde. Mas tem o esqueleto de um dinossauro, o enigma eternamente incompleto que convoca seriedade no Bobo. 


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